A mão esquerda

O fato de ser canhota nunca me deu tantas limitações, embora todos nós as tenhamos. Lembro que somente no colegial (Ensino Médio) comecei a sentir os problemas: raras eram as salas que tinham uma carteira para quem escrevia com a mão esquerda, ou seja, acabei me adaptando a usar a dos destros mesmo. Isso, obviamente, causou-me consequências: hoje preciso pedir a dos canhotos para evitar uma possível tendinite ou terei de fazer anotações apoiando-me no colo. Mas aí, tudo bem.

Lembro também, logo na pré-escola, de um caso, diria, constrangedor. Na sala, a professora pediu para que os alunos levantassem a mão que “usava para escrever”. Ela, por sua vez, amarrava um fio de lã amarela no pulso de cada aluno. Deviam ser de mais de 40 crianças. Somente eu e outra menina, a Mônica (recordo bem do nome por conta da personagem de Mauricio de Sousa), levantamos a esquerda.

A reação da professora, porém, foi intempestiva: “você não escreve com essa mão, Mônica. Você escreve com a direita”. Em seguida, amarrou a lã no punho direito. A mesma coisa aconteceu comigo.

Na hora, em minha visão infantil, fiquei muito triste mesmo, mas não chorei. Fui consolar a Mônica, que correu chorosa para o banheiro. Falei para ela não ter vergonha da mão que escrevia. Saímos juntas, sob os olhares risonhos dos outros alunos. Mas eles não fizeram coisa alguma, já que todo o moleque que me caçoava, eu geralmente saía para o ataque. Coisas de criança, enfim.

Mantive-me firme (com minha firmeza de cinco, seis anos) até a minha mãe (que é destra) buscar-me, no final do dia. Não lembro mesmo se chorei demais, mas desabei e, ao chegar em casa, corri para cortar o cordão amarelado. Contei o ocorrido e logo cedo, no outro dia, ela foi conversar com a professora e pediu encarecidamente para não “mudar a mão”, muito menos criticar.

Pois bem, dia desses participei de uma oficina de Artes. Como voltei a desenhar, sabe-se lá a razão (!), decidi fazê-la não só para melhorar o traço, mas para enxergar-me de olhos cerrados.

Papel, caneta, recortes, cola, tesouras.

Uma das atividades era escrever um plano. Poderia ser um planejamento para amanhã, um sonho antigo, um desejo para o futuro (o seu e o do mundo). Pegamos as folhas e já estava fervilhando as ideias quando a instrutora disse:

– Vocês farão a atividade com a mão que não usam normalmente.

Na hora, tomei o susto, relembrei daquele episódio de infância. Mas logo em seguida, sorridente, exclamei:

– Oba, agora todos serão canhotos e eu destra!

Sim, na sala a maioria era destro, somente eu de canhota.

Repousei a minha mão esquerda no papel e com a direita peguei a caneta. Não posso contar o que escrevi, pois é um segredo de meu coração, mas posso descrever a doce surpresa em ver a minha letra (que já não é lá essas coisas) com a mão direita: ficou incrível. Bem parecida a dos tempos da infância, quando ‘carcava’ o lápis para escrever uma redação.

Foi lindo.

Mais lindo foi ver o monte de “canhotos” que se tornaram as pessoas ali. Umas riam, outras esforçavam-se em igualar a letra, outros olhavam para o resultado assustados.

Eu saí daquele curso feliz. Pois, para quem escreve com a mão esquerda, é sempre um desafio. Mesmo sem perceber.

Mais um desafio para ser cortado com a mesma firmeza e beleza de uma tesourinha sem ponta.

Mais um desafio para superar com a mão que escreve – ou não!

 

Imagem: Keli Vasconcelos

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