A metáfora da porta

Em uma visão religiosa, o caminho estreito é o que leva o homem ao encontro do criador; e o caminho largo é o que o leva à perdição.

O caso aqui é de um adolescente, matriculado em uma escola pública, que, por contingência da vida, encontrou, ao longo dos primeiros passos, uma porção de portas fechadas.

Arrisco-me a dizer que seu desejo era abrir, em sua vida, uma pequena fresta por onde entrasse um mínimo raio de sol ou alguma luz matinal que iluminasse o fim do túnel.

Em pleno mês de novembro, o professor de língua portuguesa fazia a chamada em uma sala do primeiro ano do ensino médio, quando uma voz contida e reticente respondeu.

Ao consultar seu diário, o professor constatou que o aluno era desistente, porque jamais havia freqüentado aula alguma até aquela noite. Com muito tato, o professor conversou com ele para saber o porquê da distância:

— Você trabalha?
— Não.
— Você gosta de estudar?
— Gosto.
— Quando não está na escola, você faz o quê? Você fica em casa?
— Eu não estava em casa.
— Agora está.

Não houve constrangimento, porque os alunos que presenciaram a conversa já sabiam o motivo das faltas do colega de classe.

O rapaz era um dos internos da então Fundação para o Bem-Estar do Menor, a Febem, e aquele era o seu primeiro dia fora do extinto campo de concentração do Tatuapé, zona leste de São Paulo.

O poeta Drummond escreveu que “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”. E, se conhecesse o rapaz, decerto escreveria: no meio do caminho tem uma porta, há sempre uma porta no meio do caminho.

É bem verdade que a escola tem lá suas portas e portões e também é verdadeira a teoria de que ela oferece algumas chaves para abrir as trancas e cadeados que separam um jovem da universidade, do primeiro emprego e do convívio social.

Paulo Freire, que foi grande educador, versou sobre uma escola feita não só de concreto e tijolos, mas feita, também, de gente e, sendo assim, o rapaz foi acolhido como quem chega de viagem longa ou como quem acordou de um sonho ruim.

Por ocasião de uma festa do sorvete, os professores foram incumbidos de vender dez convites no valor de R$ 1,00 aos alunos. Antes de que pudesse esboçar algum comentário ou reação, o professor de língua portuguesa foi advertido: “Você não vai vender nenhum”.

Era o seu primeiro ano na escola e ouvir um incentivo tão grande em plena sala dos professores foi algo estranho e ao mesmo tempo desafiador.

Ao entrar na primeira sala, perguntou quem gostava de sorvete e, após alguns alunos levantarem as mãos, distribuiu os convites para dez deles e disse que eram seus convidados.

Em seguida, mostrou uma nota de R$ 10,00 e argumentou que os convites já estavam pagos, mas que aceitaria o pagamento daqueles que tivessem condições de comprá-los.

Uma das surpresas agradáveis para o professor foi o fato de apenas um aluno não honrar o pagamento; outra surpresa ficou por conta do rapaz que chegara de viagem longa.

Em uma das aulas, o professor recebia, em sua mesa, o pagamento do convite, e o rapaz estendeu a mão, com a quantia de R$ 1,10. Ao perceber o equívoco, o professor devolveu os centavos e novamente o rapaz fez o mesmo gesto, com a mesma moeda nas mãos e algumas palavras na boca: “É o dinheiro da prova”.

Acertar uma concordância, uma conjugação, a colocação de um pronome e uma crase é magnífico, porém o rapaz que chegara de viagem longa trouxe algo muito valioso em sua bagagem: honestidade.

Em um sábado ensolarado, o professor, seu filho, o rapaz e seus irmãos menores estavam todos na festa do sorvete. O rapaz e seus irmãos, com as mãos, as bocas e os narizes lambuzados de sorvete. A liberdade às vezes tem sabor de morango, creme e chocolate.

O pátio da escola estava colorido, e os pequenos mergulhavam em uma piscina de bolinhas de plástico, como se estivessem mergulhando no Reino das Águas Claras, de Monteiro Lobato.

A expressão no rosto do rapaz anunciava uma alegria que talvez nenhuma palavra desse conta de definir. Os gritos e a correria não eram de medo, e os sons do cárcere já faziam parte do passado.

Com a proximidade do fim do ano letivo, os alunos decidiram fazer uma festa em dezembro e ficou combinado que os rapazes trariam os refrigerantes, e as moças, os salgados e doces.

E foram tantas garrafas, que o chão ficou coalhado de refrigerantes, enquanto as carteiras unidas, feito uma grande mesa, exibiam uma farta variedade de bolos, doces e salgados.

No pátio, o professor de língua portuguesa se sentou em uma mureta bem ao lado do rapaz e disse que, na escola, ele encontraria comida caseira no intervalo, filmes para assistir na sala de vídeo, livros e sorvetes para devorar. Jamais seria tratado como prisioneiro.

Depois, pediu à vice-diretora para servir um suculento pedaço de bolo ao rapaz e, logo depois, viu no pátio uma boca e um nariz lambuzados de chantili.

Os dias atropelaram os números do calendário e, numa noite em que o professor fechava as notas para encerrar o ano letivo, foi procurado por outro professor, que queria saber sua opinião sobre promover ou não o rapaz para o segundo ano.

Após saber da presença do rapaz e de um homem na escola, pediu que os dois entrassem na sala dos professores e ali disse que já era tempo de abrir as portas da escola, da casa e da vida para que o rapaz pudesse ser aluno, filho e gente.

Em relação à promoção, o professor desejou que o rapaz agarrasse a oportunidade e, a partir do segundo ano do ensino médio, tomasse gosto pelos estudos e fosse um bom aluno.

O homem e o rapaz abriram, então, as comportas de uma emoção contida a sete chaves e saíram pela porta como pai e filho.

16 comentários para “A metáfora da porta”

  1. gezarelly

    GOSTEI DA METÁFORA
    NOSSA PROF SÍLVIO EU NAO SOU MUITO DE LER METÁFORA MAIS ESSA SUA EU GOSTEI MUITO PARABÉNS FAÇA MAIS POIS SEMPRE QUE EU VIM NA LAN HOUSE IREI LER SUAS MATÁFORAS SUSSESSOS NO SE LIVRO QUE VOÇÊ VAI LANÇAR ……..

  2. Maisa Pereira

    Sempre vou lembrar dessa história Silvio.É sempre bom recorda-la.
    Abraços

  3. Fernanda Oliveira Asnar

    Olhos, portas e janelas.
    Seu texto me faz lembrar que \"Deus ajuda os bons\", e para os Bons (me refiro aos bons de coração), com certeza Deus deixa sempre as portas abertas. Por isso, também defendo a idéia de que escrever é uma arte, mas Levar emoção às pessoas, certamente é um dom. Parabéns!! Sempre!! Te adoro. De Sua sempre aprendiz, Fernanda.

  4. secreta

    professor antes que termine o ano eu ainda te darei um presete.

  5. julia

    crônica
    Olá Silvio sua crônica é tão criativa como você parabéns você é realmente inteligente um abraço de sua aluna secreta te ademiro.

  6. Sílvio Valentin Liorbano

    Sílvio Valentin Liorbano

    Vê melhor quem vê com os olhos do poeta
    Imenso abraço para todos que digitaram seus sentimentos e leram minha crônica.
    Abraço fraterno do Sílvio.

  7. Bianca O. Ferreira (Rosa Bonfi

    Indiscutívelmente "TALENTO"
    A porta se abrirá se conosco trouxermos a chave, porém não haverá luz! A luz se faz de esperança, e força de vontade, e ela brilha de acordo com a intensidade do coração de cada um!
    No final de todo arco-íris tem um pote de ouro, assim como em todo caminho há uma porta, esperando para ser aberta!

  8. Camila S. Pinheiro (Rosa Bonf

    Parabéns…
    Muito bonita a crônica.Como aluna devo dizer um excelente professor.Como na propria crônica diz que muitas portas se fecham, levando em relação ao senhor algumas portas podem ter se fechado,porem as principais irão se abrir! abraço

  9. Natalia

    aluna
    Parabéns pelo seu livro e pela sua dedicação de lutar até o fim e espero que você seje muito feliz……e possa conseguir sempre correr atrás de seu obstacúlos

  10. mayara e tatiana

    Olá profºSilvio,achamos muito interessante essa sua crônica o senhor é uma pessoa de grande sabedoria,temos orgulho de sermos suas alunas,desejamos que a edição do seu proximo livro seje um sucesso pois o senhor merece isso e muito mais.(mayara e tatiana, Rosa Bonfiglioli 1°B)

  11. Ricardo(aluno do tenente)

    Olá Prof. Silvio,
    Achei muito bacana essa sua crônica, muito interessante. Além de ser um ótimo professor o senhor é um ótimo escritor. Espero que consiga editar seu livro sem nenhum problema, você merece!!!

  12. Flavio

    São muitas as portas (correção)
    Porém muitas vezes nós mesmos batemos com a porta em nossa cara!!

  13. Prof. Flávio

    São muitas as portas !!
    É Silvio, nesse seu relato eu penso e reflito sobre quantas portas são fechadas para muitos alunos nessa mesma situação. Porém muitas vezes nós mesmos batemos com em nossa cara!!

  14. João Daniel Donadeli

    Uma porção de portas fechadas
    Olá Prof. Silvio,
    Muito sensível e inteligente a sua interpretação dos fatos que levam um adolescente a tomar certas decisões que repercutiram negativamente em sua vida, pois assim como descreveu, as portas estavam fechadas…

  15. Nathália(aluna tenente alípio

    Bom professor,antes de tudo queria falar que o senhor é um ótimo educador, o senhor é uma pessoa de muita sabedoria. O senhor merece tudo, a edição de seus livros e muito mais, pois não é todo mundo que luta pelas coisas como o senhor!!
    DESEJO TUDO DE BOM A O SENHOR!!
    e POIS O SENHOR MERECE!!! e

  16. larissa

    oi!!!! professor meu nome è larissa adorei seu livro o senhor é uma pessoa de muita sabedoria
    tenho orgulho de seur sua aluna
    vou ser alguèm na vida graças a vc.. desejo tudo de bom na sua vida… bjus da sua aluna larissa..

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