A torcida

As caixas de som anunciam nossos nomes, sobrenomes, clubes e raias. Todos são apresentados um a um. O ritual é praticamente o mesmo: tira a roupa, confere a temperatura da água, se molha e respira. Tudo pronto!

O juiz pede que todos se posicionem. Em suas marcas. Estamos todos em cima do bloco, penso no impulso, na boa largada. Flexiono as pernas, coloco as mãos no bloco e trabalho numa alavanca para me jogar o mais longe possível. A arquibancada está em silêncio. O silêncio é total. Até que soa a buzina.

Sinto a água no rosto, no corpo, parece me lavar. Me jogo na prova de peito aberto, com o meu melhor. Hora de movimentar os braços e bater as pernas. A cada braçada, a cada respirada, escuto a torcida. É um revezamento entre o silêncio da imensidão da água e o urro animador da torcida.

No meio dessa torcida estão colegas de esporte, minhas irmãs e meus pais. De dentro da água não é possível enxergá-los, nem ouvi-los, mas os sinto. A cada respirada, a cada braçada, a cada virada, sei que estão lá. Há amor, há entrega, há confiança.

Força, foco, relógio. Firmeza, torcida, determinação. Mais uma virada. O cansaço começa a dar sinais. Falta pouco. Não me entrego fácil. Luto. A água escorrega pelo meu corpo. Deslizo em sua superfície, não me prendo e não me rendo. De um ímpeto, um último suspiro de força para acabar. Estico o braço e encosto a mão na parede. Olho para o relógio.

O corpo estremece. No rosto, um ardor, uma vermelhidão. Sinto o suor escorrer; sim, é possível suar mesmo na água. Respiro. Mergulho. Estou tão quente que não sinto o frescor. Sinto calor.

Saio da água, olho para a arquibancada e lá estão eles, meus pais. São os meus maiores fãs, torcedores, seguidores, encorajadores. Estão sempre prontos para tudo, eu me manifeste ou não.

Eles me ensinam, eu os ensino. Eles observam, eu me jogo. Eles são analógicos, verdadeiros e experientes. Sou digital, sonhadora e principiante. Eles tomam cuidado, eu erro. E mesmo com toda essa diferença, eles estão ali. Em todas as provas. Todos os dias. Com respeito, amor, entrega e confiança. E respeitam e confiam porque se reconhecem em mim, se reconhecem nas minhas irmãs e também na minha filha.

Abro um sorriso e acerto o despertador. Amanhã as caixas de som voltarão a anunciar nossos nomes, sobrenomes, clubes e raias. E eles estarão lá a postos, mesmo que eu não os veja. Boa-noite.

 

 

Foto: Gary Etchell (veja mais clicando aqui)

 

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