A vida é facilmente… um livro

 

Ah, viver… Às vezes me pergunto a que vim, onde estou e para onde vou. É, minha cúmplice leitora, meu cúmplice leitor, a vida é uma caixinha de surpresas que mais parece a caixa de Pandora, aberta com todas as suas aflições; não restou nem a esperança no fundinho dessa caixa?

 

Mas sem reclamar de tudo de ruim e tanto blá-blá-blá, me peguei pensando e, pensando, concluí: nossa vida seria, perfeitamente, a junção de livros maravilhosos e incríveis. Oh, jovem escritora manceba das artes, como tem a coragem de dizer tal coisa estapafúrdia?

 

É mesmo? Então, vou provar. Com poucos exemplos, é claro, até porque a vida ruge e eu preciso matar os meus leões. E olha que, ultimamente, eles estão absurdamente enormes. Mas vamos lá, que o tópico desse texto é outro.

 

A gente nasce e passa a infância sonhando. Vivemos mais na imaginação do que na vida real mesmo. É tanta fantasia… de que o quintal é o universo, de que o cabo de vassoura é um cavalo e as árvores são aviões. Parece o Zezé de O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, não é? Ah, parece, sim. Mas, aí, chega o tempo em que a gente tem de parar de sonhar tanto e viver de verdade. É o momento em que a gente cresce, sabe? Eita, primeiro trauma. Sair do sonho para a realidade, feito o Zezé.

 

Aí a gente cresce outro teco, mas continua sonhando. Só que agora a gente pensa em outras coisas. Em amores impossíveis. Mas nossos pais nunca deixam a gente viver esses amores impossíveis, porque temos de estudar para ser alguém na vida. “Que amores, que nada.” Parecemos Julietas em busca de Romeus e quando a gente acha, parece que o mundo para. Não queremos mais nada a não ser dedicar a vida ao amado. Parece até uma obra de William Shakespeare, e é. Extraída no mais perfeito drama, comédia, comédia, drama, tragédia! tragédia! Eita, que amar parece sinônimo de sofrer.

 

A gente cresce mais um teco e agora chega a hora de trabalhar. Mas quase nunca achamos um trabalho dos sonhos. Aquele que nos faça ganhar dinheiro sorrindo sem ter nenhum motivozinho para reclamar. Nada. O trabalho diário e o início da vida adulta nos conduzem a uma grande metamorfose. Viramos baratas que não morrem jamais em busca dos nossos sonhos. Mas, enquanto a vida real chama, caímos na certeza de que temos de obedecer às ordens do chefe, fazer o que ele quiser e ordenar. É como A Metamorfose, de Franz Kafka, e sua mais aguda descrição dos conflitos até de morte da relação entre o homem e o trabalho, da relação entre o indivíduo e a sociedade. Aqui começa todo o desespero do homem adulto que precisa sobreviver, mas infelizmente tem de ser da maneira que a sociedade o obriga, a maior parte das vezes.

 

Viramos adultos, ai. Aos poucos o espírito aventureiro vai dando espaço à dura realidade. Ou para de sonhar ou é engolido pela sociedade. Como a segunda opção é corroborar a derrota, é melhor lutar, não é? Mas, o.k., vamos esconder nossas dores e decepções. Vamos deixar nossos desesperos guardados a sete chaves, que é para ninguém abrir. Já sei: vamos colocar tudo em um único livro. Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, é o companheiro diário perfeito para a vida, que parece nunca ter fim.

 

Mas, de repente, a gente volta a sonhar! Renovamos nossas esperanças… Aquelas mesmas que a gente tinha perdido na infância. Só que agora estamos mais adultos, somos adultos. Então, os sonhos são mais centrados, muito embora continuem sendo sonhos. Começamos a travar nossas batalhas internas e externas. Pode ser o medo, pode ser a vida real, pode ser um desejo… Nossos Moinhos de Vento são nossas batalhas mais difíceis. E cada um tem o seu, e cada um precisa vencer o seu. Os Moinhos de Vento são implacáveis, gigantes, aterrorizantes. Mas a gente sempre acaba vencendo, mesmo depois de ter levado uma boa surra, como Dom Quixote, pela destreza de Miguel de Cervantes.

 

E eis que chega a fase em que voltamos a ser criança outra vez. A idade é implacável. Assim como foi para Benjamin Button, em O Curioso Caso de Benjamin Button, de Scott Fitzgerald. Benjamin nasce com aparência de velho e vai remoçando e virando criança no decorrer da vida. A gente, também. Nasce dependente de alguém, vive, torna-se independente e ativo… O tempo passa e nos tornamos dependentes de novo, igualzinho na infância. Igualzinho Button.

 

A vida imita a arte e a literatura é o roteiro perfeito. Claro que você tem outras ideias que, também, podem perfeitamente se encaixar aqui. Tudo depende de como enxerga a vida. Vamos?

 

*Carol Peres é jornalista e escritora. Contato: [email protected]

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