A vida por um fio

 

 

― Não comer puta, não tomar multa. Não comer puta, não tomar multa.

 

Era com essa ideia que Marcelino pensava em iniciar o ano, pois no anterior havia gasto quase cinco mil reais saindo com prostitutas e desrespeitando as leis de trânsito. Sem contar que dirigia sempre em velocidade alta, arriscando a sua vida e a dos outros.

 

Pensava que, evitando essas ações, poderia sustentar com mais tranquilidade o seu maior vício: a cocaína.

 

A mãe e os irmãos sabiam da sua drogadição. Então, o jeito era evitar dar preocupações aos familiares, que já tinham seus problemas. Nem todos se importavam, claro, eram mais as duas irmãs e sua mãe. Os homens queriam mais que se danasse pra lá. Seu pai, ele nunca chegou a conhecer.

 

O sofrimento maior restava para a mãe, católica fervorosa que se apegava a Deus a todo tempo. Quando descobriu que o filho estava cheirando cocaína todas as noites, quase enlouqueceu. Não importava o tipo de droga, só o fato de ele estar usando já era o fim do mundo.

 

― Logo meu fio, meu Deus. Acuda pra que ele saia dessa com vida, saúde e dignidade – rezava todos os dias.

 

Marcelino iniciou-se na maconha aos 22 anos. Hoje, aos 24, só quer saber do pó. Nunca foi de ficar derrubado. Sua promessa era a de não incomodar os outros. Não comprava fiado, evitava usar na frente de alguém, mesmo que esse alguém também fosse usuário. Não chegava atrasado no emprego, não usava em horário de labuta e sempre procurava seguir o ditado da mãe:

 

― Primeiro obrigação, depois diversão, meu fio.

 

Nessa entrava também a sua saúde. Obrigava-se a cuidar primeiro do corpo. Então fazia caminhada e natação. E antes de utilizar a droga se alimentava bem.

 

Assim seguia a vida.

 

Mas começou a aparecer o problema financeiro. O dinheiro que dava em casa todo mês ia diminuindo. Sabia que estava gastando demais; porém, nesse último ano, colocava a culpa nas multas de trânsito e nas profissionais do sexo com quem saía toda semana. Tinha uma terceira torneira em que ele se negava a pôr a culpa.

 

― As drogas não me dão prejuízo financeiro – falava para si mesmo.

 

Então resolveu fechar as torneiras das multas e das mulheres fáceis.

 

Como era determinado em seus objetivos, ficou um bom tempo evitando burlar o trânsito e frequentar as alcovas daquelas mulheres da esquina.

 

Com a economia pretendia resolver o problema financeiro, e com isso continuar usando o pó tranquilamente, como sempre pensava que era, “tranquilo como viajar alucinado em serena flutuação”.

 

Mas não foi assim. A torneira que era preciso ser fechada não foi. Marcelino continuava a cortar gastos. Parou de fazer manutenção preventiva em seu carro, cortou as aulas de natação, o convênio odontológico, parou com as baladas e mais um monte de coisas que necessitavam de dinheiro. Só aí resolveu assumir para si mesmo que a cocaína era a principal responsável pela sua situação financeira. E já era tarde. Pensou que sua determinação seria suficiente para parar de usar a droga.

 

Daí para a degradação moral foi um pulo. O que demorou a vida toda para conquistar foi perdido em dois anos: amizades, emprego, carro, reputação e a confiança da família.

 

Virou um zé-ninguém vagando pela praça principal da sua cidade, usando qualquer coisa que aparecia com o nome de droga. Nas horas em que nada nem ninguém apareciam ficava no banco olhando o movimento das pessoas. Refletia sobre sua situação e colocava a culpa somente nas drogas. Ele não se sentia culpado. A droga é que era a causadora da devastação. Por onde passava, em pouco tempo fazia o estrago. Era o que tinha acontecido com Marcelino.

 

― A droga me escolheu – pensava ele.

 

Em momento algum dizia que era o responsável por aquilo tudo.

 

Quando começava a escurecer, caminhava para casa. Às vezes era levado pelos amigos, os poucos que restavam.

 

Na porta de casa os irmãos não tinham piedade:

 

― Deixa esse porra aí, isso aí não tem mais jeito, não.

 

A mãe vinha apressada lá de dentro para acudir o filho, sujo, babado e inconsciente.

 

Marcelino não tinha mais limites. Na falta da cocaína, fumava maconha e crack, cheirava cola de sapateiro e até bebia pinga. Era o único prazer que lhe restava.

 

Até a sua intenção falhou: “Nunca incomodar os outros por conta do meu vício”.

 

Principalmente se “os outros” fosse algum familiar.

 

― Mamãe está nas últimas.

 

Dona Lindalva já estava com os joelhos inchados de tanto rezar pelo filho. Sua idade não era tanta, mas aparentava ser muito mais velha, graças à drogadição de Marcelino, que fez avançar seu processo de envelhecimento.

 

Morreu dormindo.

 

Marcelino só foi saber na noite do dia seguinte, quando, após três dias na rua, voltou para casa à procura de comida.

 

A morada estava vazia. Os vizinhos avisaram que todos estavam no velório de Dona Lindalva.

 

Desnorteado, com fome e cansado chegou ao velório. Nem se importou com os familiares, que o olhavam com desdém. Já foi para cima do caixão abraçando o corpo frio da mãe.

 

― Desculpa, mãe, me perdoa – dizia entre lágrimas e soluços. ― Volta, mãe, eu prometo que vou melhorar.

 

Um dos irmãos avançou para cima dele, puxando-o para fora do velório.

 

― Sai daqui, seu imprestável, vai procurar droga em outro lugar.

 

O caixão só não caiu graças às pessoas que estavam ao lado.

 

Marcelino tentou entrar mais uma vez, aí os irmãos se juntaram e levaram-no para uma rua próxima, onde deram jeito de amarrá-lo ao poste.

 

Passou a madrugada ali, no sereno, abandonado como nas noites da praça.

 

Não viu nem a saída do cortejo nem o enterro da mãe.

 

Foi a sua pior dor. Tinha ido longe demais em busca de boas sensações. O que era seu prazer era desprazer para os outros.

 

“Os outros”.

 

Acordou num hospital. A enfermeira lhe falou de como tinha vindo parar ali:

 

― Um senhor, que o encontrou amarrado, o trouxe para cá.

 

Recebeu alta no mesmo dia. Ao contrário da noite anterior, pensava agora em dar a volta por cima. Correr atrás e reverter o que ainda era possível.

 

Foi para casa e encontrou-a sem ninguém. Arrombou a janela do seu quarto e pegou algumas roupas e documentos. Partiu com a intenção de nunca mais voltar. Não conseguiria a recuperação num ambiente onde certamente seria repugnado.

 

Passou o dia procurando uma clínica para se internar. Mas sem dinheiro, sem internação. Quando a noite chegou ainda caminhava. Fatigado, encostou-se a um canto de um beco. Lembrou que desde ontem estava sem comer nada, somente com o soro injetado no hospital. Encolheu-se com frio, fome e medo da vida. Dormiu.

 

Dia seguinte acordou indisposto, mas disposto a seguir o seu objetivo. Sentia o vazio na barriga, mas a fome estava disfarçada pelo sono pesado que teve.

 

Na praça onde usava droga, vez ou outra aparecia uma perua da assistência social.

 

Teve sorte ao chegar e encontrar a perua, que já estava de saída carregando dois moradores de rua para um albergue. Ele foi junto.

 

Após alguns dias dormindo numa casa de assistência mantida pela prefeitura, foi chamado para uma entrevista de emprego. A assistente social disse que para ele não seria tão difícil uma reinserção na sociedade. Tinha todos os seus documentos e a aparência não era das piores.

 

Conseguiu a vaga numa empresa de telemarketing. Determinado, resolveu fazer benfeito as suas obrigações.

 

Um mês mais tarde estava alugando um quarto para dar lugar a outro no albergue.

 

Todo esse tempo ele estava conseguindo viver sem as drogas. Para isso fugia da fumaça do cigarro, dormia cedo e evitava fazer amizades com pessoas que adoravam baladas.

 

A perda da mãe era uma dor que parecia não ter cura. Disso ele achava que nunca iria se livrar. Mas pelo menos se ver livre da vontade da droga era uma questão de honra.

 

Com três meses de serviço passou de atendente a supervisor. Aumentou o ordenado e as obrigações. Para ele, nesse momento, quanto mais obrigações, melhor. Precisava ocupar a cabeça e despistá-la da vontade da droga. Outra vontade também o incomodava: a de sair com prostitutas. Até na compra de um carro ele pensou. Percebeu que estava doido para viver seus prazeres novamente. Daí para voltar tudo de novo seria outro pulo. E viveria assim, num círculo vicioso.

 

O salário, apesar de ter aumentado, mal dava para pagar as prestações dos móveis que acabara de adquirir, quanto mais para as prestações de um carro.

 

“Não, nem pensar.”

 

Pensava mesmo na cocaína.

 

“Com prostituta posso me expor, o carro tá fora de cogitação, o pó…”

 

Marcelino não queria se convencer, mas estava quase cedendo. E segurou por mais um mês. Certo dia, quando chegava à portaria do prédio em que trabalhava, parou do outro lado da rua olhando lá para cima e contando os andares pela janela. O seu setor de trabalho ficava no décimo andar.

 

Passou pela portaria cumprimentando o segurança e embarcou no elevador. Lá em cima bateu o cartão, guardou a mochila e foi ao banheiro. Pegou o pino de cocaína e se olhou no espelho. Suas mãos tremiam. Estava pálido. Cheirou tudo de uma só fungada. Encostou na parede e enquanto deslizava de costas para o chão chorava nervosamente. Ficou ali alguns minutos. Quando ouviu vozes, tratou de entrar numa das portas e se sentar na privada. Passou ali um bom tempo. Tempo suficiente para rever toda a sua vida. Assim que o efeito da droga passou, ele saiu do banheiro decidido. Não queria ser visto. Esgueirou-se por um corredor e tratou de ir para a escada da saída de emergência. Sabia que lá havia janelas sem grades e quase ninguém transitava por ali.

 

Caminhava pensativo na resposta que resolvera dar para as drogas.

 

“Nada mais justo para a recaída do que uma caída. Não vou dar o gostinho para a cocaína novamente, prefiro morrer a viver tudo outra vez.”

 

Tinha fracassado, agora precisava dar um fim em tudo: na sua dor e no seu vício.

 

Quando se preparava para subir na janela, sentiu que alguém vinha ao seu encontro. Era Magali, uma de suas companheiras de trabalho.

 

Rapidamente disfarçou e tratou de secar as lágrimas.

 

― Ei, moço, tá se escondendo, é? Tô te procurando há uns 10 minutos. Tô indo almoçar e não quero ir sozinha, que tal uma companhia?

 

Dali a 10 minutos estavam no restaurante, comendo e conversando animados.

 

Marcelino fixava os olhos da moça e pensava: “Viver não é tão ruim assim”.

 

*Sacolinha ([email protected]) é escritor, autor de “Graduado em Marginalidade” (romance), “85 Letras e um Disparo” (contos), “Estação Terminal” (romance), “Peripécias de Minha Infância” (romance infantojuvenil), “Manteiga de Cacau” (contos) e “Como a Água do Rio” (autobiografia). Leia mais do autor clicando aqui.

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