Adversário íntimo

 

“… andarei vestido e armado com as armas de São Jorge
para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem,
tendo mãos, não me peguem; tendo olhos, não me vejam…”.
Oração a São Jorge

— Quem esse cara pensa que é? Tô na estrada há anos, sou advogado, bacharel em Letras e pós-graduado em direitos humanos. E ele é quem consegue fazer sucesso…

Yendis fala sozinho enquanto toma banho. A indignação é contra um conhecido seu, também escritor e militante do movimento negro. Acabou de vê-lo na TV falando do seu recente lançamento.

Yendis ainda não publicou livro algum, o que tem são contos e poemas editados em coletâneas. Mesmo assim não admite que uma pessoa mais nova que ele, e sem o mesmo grau de estudo, possa ser bem-sucedido na literatura.

— Mano Mochila! Olha o nome que o cara usa. Neguin do caraio. Ô muié, vê se cala a boca dessa criança. Daqui do banheiro não tô aguentando essa choradeira.

Yendis não imagina, mas seu verdadeiro inimigo é ele mesmo, a inveja é a sua principal rival.

Mano Mochila trabalhou durante anos como ambulante no entorno do Terminal Parque Dom Pedro. Recebeu o apelido porque vivia com uma bolsa a tiracolo durante o expediente de trabalho. Nessa época já irritava muita gente assoviando jazz ou cantando Racionais.

— Aí, Dona, desculpaí, isso é música negra, pura qualidade, entende?

Não era o assovio nem o tipo de música que deixavam os outros irritados. O motivo era mesmo a sua alegria. Nunca foi visto reclamando da vida e falando mal dos outros. Até hoje ninguém o viu sem seu habitual sorriso.

O pagamento da faculdade e o sustento da mãe e dos irmãos vieram das vendas dos salgados e pipocas.

Com Yendis foi um pouco diferente. Era rabugento desde a adolescência. O que o deixava assim era o progresso das pessoas com quem convivia; na rua, na escola e até na própria casa com os irmãos. Era só alguém conseguir dar um passo ou subir um degrau na vida e ele já ficava de cara amarrada, sem querer conversa.

Por essas e outras que os parentes foram se afastando quando tinham oportunidade. Só mesmo os pais para aturá-lo. E até mesmo eles, que o filho não saiba disso, comemoraram quando ele saiu de casa para estudar e morar sozinho.

Mano Mochila, mesmo sem querer, já era envolvido com as letras. Na escola, por exemplo, odiava as aulas de Português e Literatura, principalmente quando o assunto eram as escolas literárias… Arcadismo, Dadaísmo. Mas na hora da redação e criação de texto, não tinha aluno melhor. O menino era bom, só não sabia que gostava dos livros.

— Mas, também, as professoras não ensinavam a gente a gostar. Só ficavam naquela encheção de saco. Pô, por que não falaram logo que Dadaísmo vinha de Dadá, uma puta, e que Jorge Amado era frequentador do candomblé e gostava de um marafo? Aí, com certeza, eu teria me interessado antes.

Vivia de papo pra cima das mulheres que compravam suas balas e ficavam na fila aguardando o ônibus. Até nisso atacava de poesia:

— E aí, querida, tu tem bolso nessa roupa? Então deix’eu mandar um poema pra você guardar.

E tome Gonçalves Dias, Solano Trindade e Castro Alves.

Às vezes arriscava improvisar um de sua autoria, mas não dava certo. Até porque nunca foi bom pra poesia. Sua praia mesmo era a prosa. Bastava ter o mote pra sentar na cadeira e ficar ali, durante três ou quatro horas, na escrita de um conto que lido, relido e mexido ficava primoroso. Assunto não lhe faltava, a região em que trabalhava era lotada de ocorrência a todo minuto.

Yendis passou no vestibular da melhor faculdade pública de São Paulo. Não cabia em si de orgulho. Era um pavão entre os seus conhecidos. Naquele momento estava no topo, achando ser esse o seu devido lugar.

Estudo muito e balada pouca. Tinha um objetivo e queria alcançá-lo, por isso havia de estudar. De universidade foram nove anos, e foi lá que se envolveu com o movimento negro através da literatura.

Conheceu Mano Mochila quando este entrou para um coletivo de escritores negros e afrodescendentes. No começo ficou um pouco incomodado com a presença do novato. Não ia com a cara dele, somente isso. Mas Mano Mochila começou a se destacar publicando livros, dando entrevista para o rádio e a TV e não ficando somente no grupo, como era o caso de Yendis, que dependia do coletivo e achava que poderia se promover em algum momento de ascensão da turma.

Aí começaram as implicâncias.

O ex-ambulante não sabia que era invejado, nem sequer imaginava ter inimigos.

Nas reuniões do coletivo, Yendis vivia jogando indiretas para o seu rival. Procurava boicotá-lo nas distribuições de tarefas, falava mal do rapaz para os outros e o odiava cada vez que ele conseguia um espaço na mídia.

Certa manhã Mano Mochila recebeu um e-mail truculento e preconceituoso. Isso aconteceu depois que afirmara sem receios, numa reunião do grupo, que ele fazia literatura e pronto, não era literatura negra, marginal, y ou z. Que os leitores nomeassem, mas ele fazia apenas literatura.

Alguns no grupo se sentiram incomodados, mas Yendis ficou visivelmente nervoso. Depois da reunião, ligou para os associados dizendo que tinha que afastar o cara, que ele não tinha o que fazer lá etc. Vendo que nada aconteceu, resolveu mandar o e-mail cheio de injúrias.

Mano Mochila tentou entender o recado ligando para Yendis e tirando satisfações. Mesmo sem saber o porquê daquilo tudo, resolveu justificar a fala que fez sobre literatura negra. Quando viu que não adiantava, desligou o telefone. Percebeu que o companheiro de escrita não queria entender. Então não quis perder tempo, preferiu esquecer e tocar seus projetos.

Mano Mochila voluntariamente se afastou do grupo, pois não podia ver o colega com aqueles olhos esbugalhados em sua direção. Sentia-se mal.

Quase dez anos depois, os dois se encontraram numa noite de entrega do Prêmio Cruz e Souza, que destacava escritores negros pelo conjunto da obra ou por algum livro relevante para a sociedade negra.

Nesse tempo em que os dois não se encontraram, Yendis havia publicado cinco livros, romance, poesia e coletâneas de artigos sobre questões raciais e direitos humanos. Estava confiante: seria o ganhador do prêmio que equivale a um Nobel.

Essa era a primeira vez em que a organização internacional do prêmio entregaria a estatueta para um escritor brasileiro. A expectativa era total; imprensa, escritores, intelectuais, artistas e universitários de todo o Brasil estavam com a atenção voltada para esta noite.

Yendis trouxe sua mulher, seus dois filhos, a mãe, o pai, os irmãos e mais um monte de colegas. Queria todos ali, para que vissem a sua glória.

Mano Mochila chegou com a esposa e sua pequena. Ao avistá-lo, Yendis se sentiu incomodado, mas achou que seria legal a presença dele para vê-lo vencedor. Tinha certeza de sua vitória, tanto que pela manhã consultara a mãe de santo. Ela disse que coisas boas aconteceriam naquela noite, mas que tomasse cuidado com a inveja, a sua principal inimiga. O filho entendeu a mensagem ao contrário e atribuiu o título de invejoso ao concorrente maior.

Emocionado, seus olhos marejaram. Todas aquelas pessoas ali para aplaudi-lo, abraçá-lo, gritar seu nome…

Por um momento chegou a pensar: “Se Mochila fosse o escolhido, eu subiria ao palco para quebrar a estatueta na cabeça dele. Depois pediria para os jurados reverem o prêmio, porque selecionar um escritor que não assume a sua negritude é um erro grave”.

Foi despertado dos pensamentos quando começou a solenidade.

Após as falas longuíssimas do Ministro da Cultura e do representante do prêmio, anunciou-se o ganhador.

Yendis não podia acreditar. Na cadeira estava, na cadeira ficou. Foi ficando pequeno, encolhendo, reduzindo, até caber no lugar de si mesmo.

A boca secou, as vistas embaçaram, sentiu uma agonia. O nó na garganta impediu que o vômito fosse expelido.

Precisou de muito esforço para disfarçar a dor.

O auditório foi tomado pelo barulho de milhares de mãos espalmando uma na outra. Os colegas e os pais de Yendis não queriam ficar de mãos abanando, sem graça, e também aplaudiram. Depois seus filhos, que não entendiam bem o que acontecia, entraram em festa na juntada das mãos. A esposa ficou inerte, aguardando a reação do marido. Ele nem se mexia.

Mas a surpresa maior estava por vir. Quando Mochila foi fazer o discurso de agradecimento, disse que se sentia imensamente grato, mas que havia escritor muito mais negro que ele e com uma literatura negra de verdade. Então ofereceu a estatueta para Yendis e pediu que ele fosse até o palco, que este sim era merecedor.

Novamente, as palmas, dessa vez mais acaloradas que as primeiras, e não eram para Yendis, mas para o ato solidário do ganhador, que passava para outro os créditos do maior prêmio de literatura negra do mundo.

Com todas as pessoas de pé, e aquelas palmas que doíam como faca em seu ouvido, Yendis foi voluntariamente obrigado a se levantar e também a aplaudir de pé o seu inimigo. Não teve coragem de subir ao palco.

As palmas de Yendis simbolizavam sua descida do pedestal, a caminho da humildade.

Naquele dia, ele percebeu com quem tinha de lutar.

 

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Um comentário para “Adversário íntimo”

  1. v.a.t.o

    talento nato esse mano ja li quase todos os seus livros.

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