Água de Sahel

 

De certa maneira os óculos escuros pareciam não esconder seus olhos, uma expressão maligna ocupava o rosto. O sol de meio-dia não tirava sua pose noir. Barba rala e cigarro no canto da boca. Um banco de ônibus lotado era capaz de obter algum glamour francês quando ocupado por ele. Camiseta preta, calça preta, sapatos pretos e óculos escuros. Sentia uma satisfação ordinária com tudo aquilo. Gostava de exclusividade íntima.

 

Entre um cigarro e outro, tirou do bolso da calça um papel velho. Começou a desenrolar. Um papel dobrado muitas vezes e em diferentes lugares. Enquanto o cigarro queimava no canto da boca, sua testa franzia. Lia com paciência, saboreando cada letra, sílaba, vírgula, verbo, adjetivos e ponto. Como se tocasse sua pele. Balbuciou AMO, deixando o cigarro escorregar pela camiseta até tocar o chão. Botou o sapato em cima da brasa, tornando o tempo lento.

 

Um ônibus de excursão passava pela rua, as crianças criaram um olhar curto. Ele, num vício indecifrável. Quando o ônibus virou a esquina, uma fumaça de poeira se espalhou. Na janela de uma casa, um homem baixo espiava. Com passos curtos e rápidos, uma mulher se aproximava. Saia longa, sapatos e cabelos loiros. Ele repetia os movimentos com o papel e o cigarro. Latia e abanava o rabo um cachorro vadio. Virou-se para a rua. Ele levantou a cabeça e murmurou baixo:

 

— Era isso.

— Não! Não pense assim! Não pode ser!

 

Loira, alta e ele quieto. Mostrou-lhe o bilhete. O céu, ensolarado. Ela não aceitou. Ele amassou os rabiscos. Jogou ao chão e pisou com seus sapatos engraxados. Um fluxo de lágrimas escorreu manchando o batom. Segurando seus longos cabelos com a mão direita, ela retirou o papel do asfalto. Abriu-o entre soluços. Leu-o e as gotas caíam na folha. Um abraço impossível de conter juntou os dois corpos por minutos. Um, dois, três, quatro, cinco minutos, poderia ter contado. Num instante inconstante de sol lento e vento leve. Beijou-o na testa, na bochecha retirando seus óculos e levantando o papel na altura dos seios. Ao redor deles, era límpido como água de coco colhido no Sahel. A cura da cegueira de meio-dia. Balbuciou AMO acendendo o cigarro. Ela saiu em direção oposta e os riscos naquele papel amassado, em sua mão feminina, numa sequência de letras: AMO-TE.

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Multifoco, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.

 

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