Ai que fedor de corrupção! Ai que vontade de matar!

Um ciborgue serial killer que detecta políticos corruptos pelo odor. Esse é o pseudoprotagonista de Distrito Federal (Patuá, 2014, 273 páginas), novo romance de Luiz Bras, alter ego do escritor Nelson de Oliveira. A história se passa num futuro pós-humano ou quase, em que os homens vivem cerca de 150 anos com órgãos artificiais, braços mecânicos e pernas de metal.

Entretanto, apesar da temática essencialmente futurista, não é um complexo sistema eletrônico que o assassino usa para descobrir seus alvos. Mas sim o olfato de um personagem bastante conhecido do folclore nacional: o Curupira, entidade protetora das matas, comumente representada por um rapaz de cabelo vermelho, com pés virados para trás.

É esse demônio das florestas que sente literalmente o fedor da imoralidade política nessa “rapsódia pós-futurista”, como a qualifica o próprio autor — a propósito, rapsódias são composições poéticas de versos livres, sem rimas clássicas, forma narrativa utilizada na obra.

O Curupira de Bras encarna no corpo do ciborgue e segue em uma cruzada macunaímica, caçando as vítimas pelo cheiro e dilacerando-as até que o odor insuportável de corrupção pare de exalar.

Último de sua espécie, ele quer vingança contra aqueles que destruíram seu mundo, hoje minimizado em um decadente Cerrado. Entre um assassinato e outro, contudo, a mente do hospedeiro se sobrepõe à do Curupira, que vai ganhando pensamentos mais humanos que selvagens. Começa, por exemplo, a querer reconhecimento pela maneira impecável como disseca os corpos e os deixa para ser encontrados pela polícia.

Voz hipnotizante

Se Luiz Bras teve o arrojo de criar esse inusitado protagonista parte homem, parte máquina, parte curupira, foi ainda mais ousado na construção de uma hipnotizante e fragmentada narrativa em versos livres, com o recurso do narrador em segunda pessoa ― isto é, quando o narrador dialoga com a personagem, algumas vezes se assemelhando a um conselheiro íntimo, mas a personagem não interage com ele.

Em Distrito Federal, a voz da narração é feminina e tão marcante, que, tal como o Curupira domina o humano, toma a mente de nós leitores desavisados com sua linguagem doce e irônica. É por ela que descobrimos também histórias paralelas do Distrito Federal e de todo o país, influenciadas pela série de assassinatos.

Com efeito catártico, surgem novos justiceiros com a velocidade de uma progressão geométrica frenética. Eles buscam homenagear o protagonista, caçando e imitando pobremente o jeito do Curupira de dilacerar órgãos. O grupo se chama Máquina Macunaíma ― também título de uma coletânea de contos do autor. Outro relato tocante é o do robô grafiteiro subversivo, que sai do esconderijo à noite para desenhar monstros pela cidade. O conteúdo da obra dele é sempre político.

Mas como a narradora sabe de todas essas histórias? A minha aposta é que ela seja uma inteligência artificial cheia de questionamentos existenciais, como este que abre o livro:

“SERÁ QUE UM DIA, SEM SABER, AMANHECEREI ROCHA?

Nuvem?

Meu desenvolvimento físico & mental às vezes me preocupa.

Tento enxergar os desdobramentos do que faço.

Do que sou.

Porém logo tudo vai ficando embaçado.

O amanhã embaralha o ontem.

O ontem embaralha o hoje.

Artimanhas do princípio da incerteza, disse o velho professor.

Melhor parar de tentar prever o imprevisível.”

 

Título: Distrito Federal (Patuá, 2014, 273 páginas)

Autor: Luiz Bras

*Gê Martins é escritora, jornalista e integrante do Palavraria Coletivo Literário. Contato: [email protected]

 

Comentário