Ainda posso sonhar

Os meus dias se tornaram gélidos, descoroçoados de puro desalento, desde que partiste. Uma sombria esfinge dilacera minha coronária dia após dia. Já não deveria recordar do gosto de teus lábios – gosto entre o princípio e o fim que se eterniza num olhar lúgubre, de sepulcro.

A vida caminha sem complacência. Não vejo mais escopo para conversar com o sol, as nuvens e a lua. Vejo-os chorar pelo meu calvário. Em cada pensamento em ti há uma lacuna, um ponto de interrogação.

Perco-me nos livros, nas músicas, mas são apenas fontes de inspiração para combinar ideias em volta de ti. Sinto-me abarrotado por essa moléstia de não te ter aqui.

A escuridão chega com o frio, sem o mínimo de contentamento. Mais um ruinoso dia chega ao fim. Com ele se vai alguma quantia financeira investida em líquidos fogosos.

Deito-me e respiro fundo. Fecho os olhos e coloco-me a clamar pelo sono. Começo a aceniscar. Sinto o sorriso volver a mim. Viro a cabeça com lenteza. Sete, oito ou até nove horas de um período em que retornas. Bela, com cabelos ao vento, sorriso ditoso. Dá-me a tua mão; corremos. Depois, sentamos anelantes, ávidos um pelo outro. Olhamo-nos, amamo-nos. Sinto tuas mãos e carícias.

Começas a partir mais uma vez. Deixas minha mão, perdes o sorriso de simpatia. Paro feito estátua. Apenas olho tu partires. Mais uma noite de sonho atravessa a ponte de ficção. Ah, o que faria se não pudesse mais sonhar?

Levanto-me com a certeza de que, mesmo distante, ainda posso sonhar.

Fonte da imagem: Youtube – Soneto de Separação

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