Amor: miopia e astigmatismo

 

 

Nunca se sabe ao certo o dia da semana em que o amor começou. Deve ter sido algo ali entre segunda-feira e domingo, talvez quarta à tardinha, quando você pisou no cocô do cachorro, e saiu dando risada com o sapato sujo.

 

O dia em que o amor começou estava florido, a maior primavera já vista, dizia a manchete de um jornal que você achou ter lido, enquanto comprava chicletes na banca de revistas, mas acabou levando um pocket do Shakespeare.

 

As ruas fedidas do centro da cidade inexplicavelmente lembravam a impecável Berlim. E o sol brilhou de um jeito mentiroso, jurando, com seu sorriso amarelo, que nunca mais haveria frio. Não, no seu coração.

 

No mesmo dia, que sorte, você achou dinheiro no bolso da calça jeans, e havia carrinhos de algodão-doce por toda parte. Verdade. Todos cor-de-rosa. Até pensou em postar no Instagram tamanha coincidência, mas você estava offline, sem avatar, de cara lavada.

 

Também, não por acaso, todos os semáforos estavam vermelhos neste dia, o que fazia sobrar mais tempo pros beijos. Mas o sinal abriu rápido demais, ou o beijo demorou muito a fechar, o que se sabe é que você também beijou a traseira do carro da frente. E não tinha seguro. Mas quem está seguro no dia em que o amor começa?

 

Resolveram a questão aos beijos aguardando a fila pra fazer o boletim de ocorrência na DP mais próxima. Foi aí que, naquele ambiente “a vida como ela é” da delegacia, em alguns momentos, você parecia conseguir ver seu amor com cara de gente normal. Tipo, ele poderia ser o escrivão de bigode, o guardinha magrelo da porta, cara de todo mundo. De gente que entrega tíquete em entradas de estacionamentos.

 

Mas que nada, eram flashes rápidos. Talvez porque o amor era ainda tão novinho, tipo recém-nascido, que só fica bonito uns dias depois. Que nada, mal você piscava e ele voltava a ser lindo. Foi aí que, entre um beijo e um olhar de reprovação de uma senhora com vestido de estampa de cortina, seu sexto sentido se meteu: “Você vai vê-lo assim normalzinho quando tudo acabar, querida. Ou tá achando que tudo que se vê quando o amor começa é real?”. “Acabar? Isso é pro resto dessa vida”, briguei mentalmente com o meu sexto sentido. Eu lá vou dar bola pra opinião de quem está em sexto lugar?

 

No que eu estava pensando mesmo? Quando alguém se apaixona pensa em tudo, menos no que está pensando. Ah, sim, ele era definitivamente lindo. E impecavelmente desarrumado. O tipo de gente que não passa batido, não se confunde com ninguém, sabe? Putz, no dia em que o amor começou, você esqueceu de pagar um boleto, a multa era até bem altinha, mas você já estava tão no lucro… Aí, pra fechar o dia, lembro como se fosse hoje, uma frente fria trouxe a noite mais congelante das últimas décadas, só pra vocês se testarem também entre as cobertas. Ouviram os tais sinos. Tocava também o dã-dã-dããããã da marcha nupcial, mas com uma pegada meio jazz, meio lounge, misturada ao samba-enredo da Mocidade e o canto do passarinho verde que sobrevoava o quarto. Era halloween, as crianças batiam na porta pedindo doces, enquanto vocês faziam travessuras.

 

O dia em que o amor começou, se não me engano, o Brasil venceu uma Copa do Mundo. Da Argentina! O que prova que Deus é mesmo brasileiro e não achou justo só vocês dois serem tão felizes assim naquele dia. Foi um golaço. O universo fez “oláááááá” em total disritmia, com o coração na boca, torcendo de um jeito que você achou que ele, o amor, jamais daria a bola fora de um dia acabar.


*Katiany Pinho, publicitária, é diretora de criação, cronista, roteirista de TV com séries produzidas pela RBS TV de Porto Alegre. É coautora do livro “Convergências Midiáticas ― Produção Ficcional” (Sulina, 2010).

6 comentários para “Amor: miopia e astigmatismo”

  1. Sandra Cristina Vaz

    Sou sua fã. Lindo, delicado. Algodão doce pra minha alma.

  2. Tânia Regina Wiggers

    Simplesmente fantástico. Fui transportada para o meu dia em que o amor começou.
    Amei. Amo amar.
    Parabéns querida Katiany

  3. Julio Carneiro Conte

    Já li alguns textoa desta autora. Ela tem consigo uma nova Lispector. Muito autêntica, visceral. Talento que não aparece todo dia.

  4. Marcelo Damasio

    Sensível e desconcertante ao tocar até na dor e na realidade com o olhar de poucos.

  5. Lourdes Marques

    Lindo e verdadadeiro.

  6. Lourdes Marques

    Que olhar fantástico sobre o amor. Muita sensibilidade em cada detalhe e veracidade em cada inevitável dor.

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