Ampulheta média

Ano de mil seiscentos e dois mil e quinze

Um quadro olha devagar

E O Grito da parede

se espanta ainda mais com o que vê

: caça às bruxas caça aos coroados cruzadas caça ao vermelho caça aos negros caça aos descalços caça aos coroados cruzadas caça às bruxas trinta linchamentos por dia

 

Dois mil e quatro letras de terror

E outras e outras sob a imagem da liberdade

O grande útero engolindo embarcações

E parindo ao avesso

(dorme uma criança, embalada por Iemanjá

dorme profundamente)

 

Ano dois mil e incontáveis caracteres com espumas nas bocas

acastelados em fortes e canhões em riste

enter em uma linha do tempo

de dias ralos

 

Ano de dois mil e rio

de tabela periódica

Vale de lágrimas

e manganês

e peixes boiando

Vale de lama e lama e lama

 

Dois mil e cento e onze

balas

(o bule ferve no fogo

as balas fervem nos morros)

 

Asfixiado com gás de pimenta

O Grito se joga da parede

e ecoa nas ruas

 

Dois mil e um, oito, zero

Um virar de mesa, e um jogo da velha

entrecruzam-se nas vozes de mulheres do fim do mundo

(e versos plurais)

e dois mil e duzentas escolas

que fincaram cadeira e ocuparam este coração

 

este, de sua parte, apruma o grito, e bombeia

para que oxalá acordem 2016.

 

 

Imagem: Arte combinando foto e detalhe de uma das telas que compõem a série “O Grito”, de Edvard Munch (1893)

3 comentários para “Ampulheta média”

  1. Rogério

    Contornos líricos,imagéticos ao nada poético,se arrasa Le.

  2. Sandra

    A visão crítica de tantas lutas…desastres ecológicos…. desalentos de uma sociedade onde muitas vezes falta humanidade ,,,,, Parabéns Letícia, a arte de escrever está nas suas veias…

  3. Marli Izilda Ribeiro

    Parabéns, jovem poeta você me surpreende, tem talento!!!

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