Aos olhos, tudo é lícito

“A licitude dos olhos” (Penalux, 2016), de Tere Tavares, é um livro de contos que trata das pequenas e das grandes questões pessoais no mesmo nível. Nele, o leitor não vai encontrar historiazinhas do tipo água com açúcar, tampouco grandes histórias aflitivas. O foco dos narradores desses contos é o indivíduo na sua mais franca observação do eu e do que está em volta.

Os nomes das personagens são sugestivos, a maior parte estrangeiros. Há até um caso de anagrama, em que duas personagens se revezam num conto (“Espelho”), chamadas “Maria” e “Airam”. Mas a valorização dos nomes conta pouco, no final das contas, para as outras narrativas – é claro que um espelho possa transformar um indivíduo no seu duplo invertido, grande sacada do conto. Mas as pessoas retratadas no cotidiano de pensar e sentir poderiam ser Maria, Airam, Bento ou qualquer outro.

O leitor desta resenha pode estar pensando: “Mas que tipo de livro é, então, esse?”. É um livro moderno na sua convicção de ser fluente na linha dos pensamentos e na lida dos sentimentos, sem peripécias que configurem enredos, no estilo de prosa poética. Cada personagem se basta, olhando-se ou olhado pelo olho nesta “licitude”.

Nesse livro, cuja capa exibe muitos olhos (criados pela autora, que também é artista plástica), é lícito não somente ver, mas principalmente ver. A primazia do olhar interno de cada personagem assim é dada por cada narrador ao leitor, que, lendo fluentemente cada conto, vai deparando com a beleza de tudo o que é expresso nos textos:

“Vê, nas pupilas cuja cor o sol revela, afastadas as purezas incertas da noite não dormida pelos olhos descidos do rosto no teu rastro sem caminho – compreende o quanto de luz molha e bendiz a visão que te esculpe a rota”.

Esse trecho de “Kanthi” mostra como esse conto faz uma metalinguagem a partir do título do livro: o mesmo olho que é visto também vê! O conto todo segue esse estilo.

Vale lembrar que, na sondagem das personagens em sua luta diária, cabe também uma aproximação da autora com a espiritualidade, esse tema que entre nós tem sido subestimado e considerado até pouco artístico. É uma ousadia da autora, sim, mas de forma discreta demais, ou seja, o leitor ateu não vai se incomodar com a forma que tomam os textos.

Para concluir, vale observar (como os olhos lícitos) que o texto tem grandes tiradas sobre a vida, como em “Fragmentos”: “A solidão não é uma opção casual, mas um processo de criteriosa escolha”.

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Livro: “A licitude dos olhos” (Penalux, 2016, 100 páginas)

Autora: Tere Tavares

Saiba mais sobre o livro clicando aqui.

Um comentário para “Aos olhos, tudo é lícito”

  1. Tere Tavares

    Muito obrigada Vivian de Moraes pela atenta leitura e competente resenha. Honrada pelo eco e apreço. Abraço.

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