Apenas mais uma história de amor

Era necessário acordar muito cedo, mas isso não a incomodava. No auge de seus dezessete anos, Carla, agora já uma mulher (em sua própria concepção), não saía de casa sem dedicar um bom tempo à frente do espelho. A escolha da roupa já começava no dia anterior e, após a pausa para o sono, continuava nas primeiras horas do novo dia. Um banho demorado, bons minutos alisando os cabelos, perfumes, hidratantes, maquiagem e, novamente, mais um tempo à frente do espelho. Sua mãe era obrigada a intervir quase todos os dias zelando para que a filha não chegasse atrasada ao primeiro emprego, conquistado depois de muito sacrifício. Não era o emprego dos sonhos de ninguém, fazer faxina em uma fábrica, mas era graças a ele que Carla ajudava a mãe a criar os três irmãos caçulas, depois da morte prematura do pai.

― Anda, menina, você vai se atrasar! – gritava da cozinha a mãe, quase como um mantra diário, enquanto preparava o café.

Todos os dias eram iguais. Primeiro uma boa caminhada pelas ruas de terra batida, de casa até o ponto do ônibus e depois mais duas horas na condução lotada até o trabalho. Quando conseguia um assento vazio, a menina aproveitava o tempo do trajeto para ler.

Era a terceira ou quarta vez que relia Romeu e Julieta. Comentava diariamente com as colegas de trabalho sobre a beleza e a sensibilidade daquele romance sem que elas dessem muita atenção às suas palavras. Estavam muito mais interessadas em falar mal da chefia da fábrica e dos meninos com quem dividiam o refeitório na hora do almoço.

Aliás, ali, usando o uniforme de trabalho, Carla se sentia mal, às vezes até boba. Pensava no desperdício de tempo que era toda a sua preparação matinal. Não adianta nada acordar cedo, se perfumar e se arrumar para chegar aqui e ficar igual a todas as outras. Mas isso era logo esquecido na hora em que a sirene do turno tocava e ela voltava a se arrumar, agora muito mais rápido, para deixar o emprego e encarar o cursinho pré-vestibular que fazia à noite. Era a faculdade de enfermagem que dividia os seus pensamentos com as histórias e os contos românticos.

No ônibus a caminho do cursinho, eram sempre as mesmas pessoas que viajavam com ela, salvo algumas raras exceções um dia ou outro. Além do motorista e do cobrador, segundo ela, havia um velho nojento, que sempre soltava alguma gracinha quando ela passava na roleta, e também três senhoras, um casal e mais um senhor que sempre estava dormindo. O percurso levava mais ou menos uma hora, mas ela não ligava, já que aquela condução não transportava muita gente e fazia o trajeto com muito mais agilidade que o ônibus que ela pegava pela manhã.

Um dia qualquer, enquanto Carla se entretinha com seu livro, um jovem dos seus vinte e poucos anos entrou no ônibus. Era um menino normal, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem feio nem bonito, mas com um olhar triste, seco e ao mesmo tempo penetrante. Olhos que atraíram o olhar de Carla e fizeram com que ela o encarasse, só percebendo sua atitude depois que um buraco fizesse com que ela deixasse sua bolsa cair no meio do corredor. Meio sem graça, ela se levantou, mas o jovem foi mais rápido, passou a roleta e pegou a bolsa, devolvendo-a para a menina. Constrangida, ainda olhando no fundo dos olhos do jovem, e muito tímida, ela agradeceu toda aquela gentileza. Ao contrário do que esperava, ele não disse nada. Apenas seguiu para o último banco. Carla, que sempre se sentava no meio da condução, ainda deu uma discreta olhada para trás e voltou a se sentar em seu lugar, mas a partir daquele momento aqueles olhos tristes e penetrantes não sairiam mais da sua memória.

Com o passar das semanas, o jovem se tornou assíduo naquele trajeto. Sempre sério, sozinho, sempre sentado no último banco, fitava a janela com o seu olhar perdido. A cada dia que ele entrava no ônibus, o coração da menina disparava. Tentava disfarçar fingindo ler, mas depois da chegada do rapaz as páginas pareciam ficar em branco. Discretamente, Carla virava a cabeça quando o rapaz passava por ela. Tinha vontade de falar com ele, perguntar as horas ou qualquer coisa que servisse como desculpa para iniciar uma conversa, mas ainda lhe faltava coragem. Começou a imaginar como seria a vida dele. Se tinha saído do trabalho e voltava para casa. Se estava estudando. Morava com os pais? Era casado? Não, preferiu voltar a pensar que era solteiro e morava com os pais. Será que tinha muitos amigos? Era admirado por muitas mulheres? Não, ela não queria pensar nisso. Voltou a dar uma breve olhada para trás, e ele continuava olhando pela janela. Será que ele já tinha se apaixonado por alguém? Será que tinha um grande amor? Não, claro que não! Por que só penso coisas ruins? Ele deve estar preocupado ou cansado por conta do trabalho ou dos estudos, claro!

O cursinho já não rendia o esperado, nem mesmo a concentração no trabalho era a mesma. Carla não conseguia parar de pensar no rapaz. Naqueles olhos tristes e perdidos. Sua mãe começou a desconfiar de que alguma coisa acontecia com a filha. Tentou perguntar, sondar alguma resposta, mas não obteve sucesso. Preferiu se calar e deixar que a menina falasse quando se sentisse confortável para isso. É coisa da idade, pensava ela.

Sem suportar mais aquela angústia, certa manhã Carla tomou coragem e decidiu que naquele dia iria se apresentar ao rapaz. Separou a sua melhor roupa, pôs na mochila e decidiu, excepcionalmente naquele dia, se aprontar com calma, no final do turno, na própria fábrica. Passou o dia inteiro olhando para o relógio, torcendo para que os minutos passassem rápido, torcendo para que logo chegasse o fim do dia. E como aquele dia foi demorado! Quando ouviu a sirene alertando o final do turno, seu coração disparou. Estava pronta, enfim, para o seu grande encontro.

Fez questão de comprar um perfume novo para a ocasião gastando boa parte de seu salário. Apressou-se para não perder a condução e, diferentemente de todos os outros dias, sentou-se no último banco do ônibus, exatamente onde o rapaz costumava sentar-se. Ao olhar para a frente, ainda foi obrigada a aguentar um sorriso malicioso do cobrador, que parecia perceber suas intenções. Ela preferiu ignorá-lo e abriu seu livro esperando como Julieta esperou seu grande amor, Romeu. Sempre sonhou viver uma grande paixão como a do seu livro predileto.

Ao ver o rapaz passar pela roleta ela se manteve de cabeça baixa, não queria parecer nervosa nem ansiosa. Após uma freada, a menina levantou sua cabeça assustada e viu seu amado praticamente cair em cima dela. Tudo foi muito rápido. Enquanto ele se levantava, ela ouvia gritos vindos da frente da condução. Ela não conseguia ver muita coisa, o rapaz estava à sua frente, pálido, e, ao sorrir para ele meio sem jeito, ela percebeu que ele sangrava na barriga, e com uma das mãos ele tentava estancar o ferimento. Na outra mão ele carregava uma arma.

Carla mudou de feição. Seu sorriso deu lugar a um grito, enquanto era puxada pelo rapaz para bem junto dele. A polícia evacuava o veículo pela porta dianteira. Agora eram apenas ela, seu amado e os dois policiais que entraram no ônibus.

Os policiais gritavam para o jovem largar a arma, ele por sua vez balbuciava palavras sem sentido no ouvido dela. Carla pediu calma para a polícia, pediu calma para o rapaz e foi surpreendida por um barulho seco mas ao mesmo tempo ensurdecedor. Sentiu um peso em suas costas e, ao se virar, viu o rapaz despencar ao chão, alvejado na cabeça por um tiro vindo de fora do veículo. Ainda pôde sentir o sangue dele espirrar em seu rosto. Foi a única a ouvir o seu último suspiro de vida. Caiu de joelhos ao lado do corpo e pôde ver aqueles olhos tristes ainda abertos, mas agora sem vida, olharem para ela.

Os policiais falaram alguma coisa pelo rádio, pularam a roleta e foram em direção ao casal. Ao se aproximarem, foram surpreendidos por uma moça descontrolada que gritava palavras de ódio e juras de amor. Ao tentar acalmá-la, perceberam que Carla agora empunhava a arma que era do rapaz morto e, num ato inesperado, se levantou e disparou contra os policiais, tirando suas vidas. Ajoelhou-se ao lado do corpo do seu amado, pegou seu livro favorito sujo de sangue no chão do ônibus e, olhando nos olhos sem vida do rapaz, disse em voz baixa uma frase que um dia havia ouvido sobre o seu livro favorito:

“Quando fecho os olhos, duas coisas me vêm à mente… primeiro você, segundo o suicídio por não poder viver sem você”.

Naquele dia Carla abdicou de sua vida para saber ao certo quem era aquele menino misterioso. Dono de olhos tristes, que invadiu o seu coração sem pedir licença e, sem dizer quase nada, roubou sua alma. Não lhe restava mais nada a não ser encontrá-lo numa outra vida para quem sabe, enfim, serem felizes para sempre.

Créditos da imagem: deviantart.com

 

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