Aquele dia

Lembro-me como se fosse hoje. Porque talvez somente hoje eu consiga entender a grandiosidade daquele dia. Daquele meu dia de menino. Eu esperava ansioso por aquele domingo. Na noite anterior mal conseguira ficar quieto na cama. Não via a hora de misturar-me àquele mar de gente. Ia ver de perto os jogadores de que meu pai tanto falava.

— Filho, logo você vai crescer e iremos ao estádio. Vamos ver o talento do Rivellino de perto, filhão!

A expectativa dele virou a minha ansiedade. Corinthians e Portuguesa era o clássico que vinha para o interior. Na verdade, eu não entendia muito bem as regras do jogo. A minha maior emoção era estar com ele. Só nós dois.

Uma semana antes de a bola rolar, ao voltar da escola, passando em frente do bar do Senhor. Francisco, vi todos os homens da cidade reunidos para fazerem suas apostas. O jogo era “o” acontecimento de Ribeirão Preto no ano. E do jeito que eles estavam felizes, imaginei que esse tal de futebol operasse verdadeiros milagres. É que a última safra da cidade havia deixado muitas famílias com dificuldades, e a alegria, fazia meses, não dava as caras na minha Ribeirão.

— Boa-tarde, Carlos! Se já fosse homem feito, ia ter de fazer sua aposta. Tá ansioso para o jogo, garoto?

Apenas fiz que sim com a cabeça e desapareci na ladeira da rua principal.

Desde esse encontro, as horas demoraram o tempo do infinito para passar. E ele ainda não tinha voltado para casa. Era seu trabalho.

— O que o seu pai faz, Carlinhos?, perguntou a professora nova.

— Ele é fazedor de saudades, respondi com os olhos cheios d’água.

Agora, faltavam cinco horas para o apito inicial do maior acontecimento da minha vida. Nós dois, juntinhos, uma tarde inteira. Eu não via a hora! Enquanto toda a cidade entrava no clima da bola, meu coração disparava a cada barulho de carro que eu ouvia.

— Mãe, que horas o pai vai chegar?, eu perguntava de meia em meia hora.

O caminhão que meu pai dirigia era um Scania que, para meu tamanho de menino, era tão grande quanto as montanhas que cercavam a minha cidade. Nunca gostei de estradas. Elas sempre me separavam do meu pai. Mas eram elas também que o traziam de volta.

Fui para a janela esperar por ele. Faltavam duas horas para o jogo. Passos sossegados de sapatos dos mais variados tipos, e muitos chinelos, amaciavam o paralelepípedo em direção ao estádio.

Pais e filhos tomavam sorvete e conversavam desencanados da vida. Como ia a escola, as brincadeiras com os colegas e o time da várzea. Os homens não conseguem se aprofundar na intimidade, nem com os filhos.

O tempo era o mesmo, mas as horas saíam em disparada. Faltava uma hora. Meus olhos inundaram. O movimento para o estádio aumentava conforme os minutos passavam. A essa altura os passos eram apressados. E nada dele.

— Meu filho, tem coisas que só sentindo para saber. E se você quer saber o que é emoção de verdade, precisa ir aonde tem uma bola de futebol!

No fundo, acho que ele estava falando de outra coisa. E a bola não tinha nada a ver com isso.

— Oi, Cacá, você vai no jogo?, disse André, pai do Henrique, meu amigo da escola.

As borboletas tomavam contam do meu estômago. Ele não vai chegar, eu pensava. A mãe tinha um olhar triste. Só mais vinte minutos e o Rivellino ia correr no tapete verde de Ribeirão Preto. O vizinho acompanhava toda a movimentação do jogo pela rádio local. Peguei as minhas bolinhas de gude e fui para o quintal. A jabuticabeira estava carregada. Enquanto comia jabuticabas frescas do pé, lembrei-me das férias na casa da minha avó. Mas essa é uma outra história.

Tão sem graça quanto ficar em casa em dia de sol. Era assim que eu me sentia. Sem ânimo para respirar.

Mas, de repente, tudo à minha volta pareceu ganhar novas cores. O quintal parecia um belo jardim. Uma brisa acolhedora me abraçava. Eu sabia que era ele. Não acreditava que ele tinha conseguido. Era ele. Meu coração estava na boca e, quando olhei para trás, encontrei dois braços abertos para me receber. Quanta felicidade!

Caminhamos felizes até o estádio e, por mais que a cidade inteira estivesse lá, para mim só existia nós dois. Pela primeira vez falei que o amava, sem saber que aquela seria também a última.

 

 

 

Imagem: Arquivo de época Gazeta Press (www.gazetapress.com)

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