Aquele passeio de bicicleta…

 

Para João Anzanello Carrascoza


Ciclista Henfil,

Se estiver entediado de céu e tiver o olhar fatigado do poeta – se o paraíso ficou previsível demais e suas asas exaustas pedem o chão da infância –, convido você e os seus para um passeio de bicicleta.

Quem sabe a gente consiga juntar aqueles meninos que vivem de paletó e gravata em Brasília – quem sabe eles queiram novamente sentir o vento no rosto e o peito livre de tudo. Talvez seja possível andar de bicicleta outra vez… Percorrer o que resta de vida com as mãos sujas de trabalho e mergulhar naquele açude para despertar nossa alma-criança.

Talvez seja possível ser o pequeno imenso João em sua Cravinhos – desvelar o mundo pela ótica da poesia e dos gestos generosos e brincantes que pedem comunhão.

É preciso juntar bens e dinheiros porque seremos importantes, mas é urgente juntar amigos e brincar de roda para que as mãos estejam unidas outra vez. As mãos sírias e norte-americanas – as mãos dos ditadores e dos pacifistas, as mãos do jardineiro e do lenhador, as mãos de quem só esbofeteia e de quem acaricia.

Há um mistério (entre tantos outros) – alguns homens esquecem suas origens, o berço dos seus antepassados, a memória racional e principalmente a mais sublime: a afetiva. Há homens que são acometidos de uma amnésia profunda e ignoram um sentimento muito importante: o amor.

O amor pelos seres vivos, pelos parentes e os que não são parentes, o amor pela natureza, pelo lugar onde nasceu, pelas pessoas que vivem lá, o amor pelos filhos, o amor por toda figura feminina, o amor por toda forma de arte, o amor pelo alimento – o amor pela vida. Pena que minha carta tenha pouca força e não consiga espalhar a mudança. Já aquele passeio de bicicleta…

 

Jornalirista.

Um comentário para “Aquele passeio de bicicleta…”

  1. Alexandre

    Silencio em Palavras
    Bravo

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