As curvas da estrada de Santos

 

Um dia parti e nunca mais a vi. Ela foi o meu primeiro grande amor, eu tinha 16 anos. E para lá eu retorno hoje, 27 anos depois. Jamais me esqueci de onde morava: primeiro prédio da segunda rua do segundo bloco de edifícios do BNH de Santos. Só não me lembrava do número do apartamento, nem do andar, mas o prédio é baixinho.

 

Com meu fiel escudeiro Carlos, amigo das horas boas e más, logo descobri que a família ainda morava ali, depois de um giro pelo quarteirão. Vou tocar, toca, sim, e toquei, com coragem. Dona Zeli atendeu o interfone, me identifiquei, “Sou o Guilherme, namorei a tua filha tempos lá atrás…”. Ela lembrou, de imediato e com entusiasmo, e mandou subir.

 

Dona Zeli e Seu Altair, os pais, estavam velhinhos, mas ainda estavam vivos, que alegria que me deu. Até a Valéria, a irmã do meio, morava lá de novo, depois da separação. Do menino que fui, não sei o que ficou direito, decerto não foram os cabelos. Como imaginava, Elaine, meu antigo amor, não estava. Lembrava que ela se casara, anos atrás. E me disseram que se separara, mas já andava vendo um outro rapaz, meio na surdina, para evitar dissabor e contratempo com o ex-marido, durante o trâmite do divórcio e partilha de bens. Sabia que ela tinha dois filhos, tempos atrás me adicionaram no Orkut e foi aquela festa a distância.

 

Lembramos dos tempos antigos como se tudo tivesse ocorrido ontem, mesmo. Lembrávamos de tudo, de todos, com invejável memória. Àquele fica, não fica, não quero atrapalhar, já é tarde, fomos ficando, relembrando os tempos. Tomamos cerveja, comemos pizza, tomamos Coca-Cola tradicional. Falaram da minha irmã, do tanto que ela gostava de bolo de banana. Não lembrava disso, não.

 

Agradeci Dona Zeli por tudo que fez por mim no passado. Como abusei da boa vontade dela. Dormi fins de semana seguidos, ao longo dos meses, na casa dela. Ela cozinhou para mim sempre, e eu, é verdade, lavei um tanto de louça para ela. De certa forma, era uma mãe para mim e acredito que eu, um filho. Disseram que eu fosse à festa no clube, no dia seguinte, pois a Elaine estaria por lá e eu poderia revê-la. No meio da visita, a própria Elaine ligou para a mãe e me fizeram falar com ela mesmo à revelia, eu até corri da sala de vergonha, mas não teve jeito. E quanta falta de inspiração da minha parte. Não falei nada que se aproveitasse, não estava preparado.

 

No dia seguinte fui com o Carlos e a Maria, a mulher do Carlos, passear. Andamos de bicicleta (há quantos anos não pedalava, hem?) da Ponta da Praia até a praia do Tombo, no Guarujá. A mesma praia do Tombo onde a Dina me entremostrou seus seios, eu menino, e onde quase morri afogado, na minha tentativa baldada de big rider, quando adolescente.

 

Entrei no mar gelado, nadei, espanei um pouco da tristeza, fiz uma oração contrita com a água pela cintura, pedi, pedi, agradeci. Foi bom, a cerveja também estava boa, havia moças bonitas também. Passei o dia pensando no encontro com a Elaine e à noite me preparei para ir lá. Meus amigos me apoiaram e foram comigo.

 

Quando chegamos, não havia ninguém conhecido. Já estava conformado de não encontrá-la e então foi que eles chegaram todos, a família toda ou quase, pai, mãe, irmãs, sobrinhos… e ela, sim, ela! Fui ao encontro dela, oi, como vai? Eu estava constrangido demais, devia estar bem ruborizado. Acho que ela também estranhou. Sentamos um ao lado do outro, bebemos cerveja, falamos do passado, de planos, de frustrações, das separações. E também sobre nós, aqueles que se amaram e planejaram até casamento, 27 anos atrás:

 

― Puxa, você sumiu. Por que você foi embora? Eu chorei um mês inteiro por sua causa. Fui até na casa de amigos teus – ela me questionou, séria.

― Desculpe, eu estava com a vida atrapalhada, não me leve a mal, desculpe. Você sofreu muito? – tentei justificar o injustificável e amenizar o constrangimento.

― Você foi a primeira pessoa por quem me apaixonei perdidamente.

― Puxa, lamento, me desculpe.

 

Ela tinha o cabelo loiro, com algumas mechas mais escuras, como antigamente. Os lábios eram finos, uma camada sutil de batom rosa-claro desenhando-os, os dentes branquinhos e perfilados, brincos dourados. Uma blusa verde-azulada sobre outra blusa, calças jeans. Ela era ainda bonita. E ela era um pouquinho mais velha do que eu, jurava que ela era de setembro, mais uma virginiana na minha vida, viriam outras depois, mas ela era mesmo de 30 de outubro, escorpiana. Fiquei feliz de pelo menos daquela vez não ter me repetido.

 

Então chegaram os filhos, um menino e uma menina, Matheus e Maitê. E o ex-marido chegou junto, cara meio estranho, e foi se sentar do lado direito dela, eu, no lado esquerdo. Que situação bizarra. Os filhos eu beijei, abracei, agradei, de repente me senti o pai deles e quase os chamei de filhos, faltou muito pouco. Eu não tenho filhos e até hoje nenhuma nega maluca me apareceu no meio de uma partida de sinuca.

 

Era uma sensação boa e ao mesmo tempo estranha: estava eu ali, como antes, com as mesmas pessoas, com mais pessoas, é verdade, os filhos, os netos. E eu, sinceramente, me sentia como antes, eu era o mesmo jovem sonhador de ontem capaz de colocar faixa na rua dizendo que a amava, como fiz naquele aniversário de um ano de amor, e também com a mesma frieza de ontem, capaz de um dia dizer adeus sem dó. Eu era aquele menino de cabelos encaracolados, solícito, tranquilo, sorridente, simpático e capaz de me despedir sem muita dor no coração.

 

Agora já era quase meia-noite, a festa tinha acabado. Na saída, dei-lhe um abraço longo, mas um tanto receoso, intranquilo. Qualquer coisa a gente se fala pelo Face, dessa vez foi ela quem me falou com distante carinho, num tom que julguei um tanto frio. Abracei e beijei todos da família, até breve, obrigado por tudo, volte quando quiser.

 

Na volta pelas curvas da estrada de Santos, meu Corsa 96-97 começou a ratear na subida, a exemplo do que já fizera na descida, e foi perdendo a potência, perdendo, um calor cada vez maior subindo de dentro e, por fim, não havia outra forma, salvo a de parar no acostamento e desesperar. Subia uma fumaça negra do capô. Temi pelo pior. Sem saber o que fazer, liguei para o Carlos e ele não atendeu uma, duas, três vezes. A busca na internet, pelo celular, “ecovias socorro”, não trouxe nenhum telefone de utilidade.

 

Aqui fora só havia o breu, o céu, a silhueta negra da vegetação lateral, lá embaixo, no abismo das curvas de Santos. Tive medo de querer me jogar lá para baixo. Então caminhei, caminhei por longuíssimos minutos pelo acostamento, carros e caminhões passando velozmente do lado, a estrutura de concreto balançando, até que surgiu um veículo de socorro da Ecovias. Subi a estrada de Santos na caçamba do caminhão-guincho, o pisca-alerta ligado, pensando na vida sozinho, em tudo que acontecera, com alguma melancolia e resignação. Foi me deixar em Diadema, de onde precisei pegar outro guincho, para chegar em casa mais de três horas da manhã.

 

Não. Não foi castigo, não.

Um comentário para “As curvas da estrada de Santos”

  1. Carlos

    Putz
    Puuuuuutttttzzzzzz!!!!!!!!

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