As idades da terra

 

Quando eu era menino, meu pai era o meu melhor amigo. As brincadeiras, a alegria toda que tinha era com ele. Meu único amigo era ele. Eu ficava toda noite esperando por ele, o coração num aperto só. Se ele se atrasava, eu tinha vontade de chorar, muita. Ficava escutando, esperando o táxi encostar ao portão. Então ele assoviava a música do negro gato, a música que sempre assoviava para anunciar a sua chegada, e eu corria que corria, as pernas gargalhando, na direção do portão. Quando ele entrava pelo portão azul de madeira, eu nem perguntava como estava, não: trouxe presente, pai, trouxe presente?, trouxe, sim, oba!, qual?, qual?, sou eu, ah, mas esse eu já tenho, pai. Claro, sempre foi o melhor presente. Era a minha alegria que chegava com ele; se encerrava com ele a minha desesperação. Futebol no quintal, jogo de botão, histórias da Birmânia, o lugar mágico para onde nos levava pela imaginação, eu e minha irmã, quem não levantar a bunda fica corcunda, toda história terminava assim, e a gente estirada na cama firmava os pés no colchão e erguia a bunda para não ficar corcunda. Meu pai era a Sherazade de casa. E eu queria ocupar o lugar dele na cama, ao lada da minha mãe. Eu dormia segurando o dedo indicador dele, para que ele nunca fosse embora da minha vida. Mas quando tinha pesadelo ia mesmo para o lado da cama da minha mãe, meu pai não tinha muita paciência pra fantasmas.

 

Quando eu era quase homem, e botei buço na face e pentelho no púbis, meu pai era o meu pior inimigo. Meu herói era o anti-herói. Que sujeito efedepê. De repente se tornara tudo aquilo que eu não queria para mim. Era tudo aquilo a ser evitado. Também naquela época já havia um outro irmão. Acho que não gostava tanto dele assim, o efedepezinho. Havia então meu pai e meu irmão e eu no meio, o triunvirato masculino da casa, pobre da minha irmã. E havia ainda muita briga, pai contra mãe, mãe contra pai, pais contra avós, todos contra todos. Quando eu era quase homem, minha casa se tornara quase prisão. E me sentia sempre mais em casa quando fora dela. Talvez venha daí certa facilidade de me adaptar muito rapidamente ao mundo. Já não havia mais a Escola Mutirão, as inesquecíveis e horrorosas gororobas macrobióticas e a Diretora Ana Maria. Já não havia assovio ao portão. Havia, sim, arritmia, muita, e o início de funda desilusão. Meu pai era o monstro a ser combatido, um monstro já com muita humanidade, é verdade, amargando as primeiras demissões.

 

Quando eu era homem feito, meu pai era meu amigo, outra vez. Acho que era meu melhor amigo de novo. Depois de anos de distanciamento, de conversas silentes e ódios eloquentes, chegara o dia do aniversário dele, aquele dia, 14 de fevereiro. E eu fui visitá-lo, depois de anos de distanciamento. Então eu vi o trabalho que ele tinha feito, aquele trabalho pelo qual eu me encantara ainda menino, o menino que amava o seu pai. O pequeno, o humilde que é na verdade o grande, revisto, aquilo que conhecia e admirava, outra vez diante de mim. Ensinamento que ficou dele, o amor pelo pequeno, pelo simples, até hoje, lição de humildade e retidão. Então foi um choro espontâneo, convulso, soluçante, um choro inesperado e longo e sincero e grosso sacudindo o meu corpo e dobrando a minha espinha. A força inexcedível que a verdade tem. Era o meu pai dentro de mim, eu sentia!, eu sentia!, como antes, forte como antes. A identidade, à sua semelhança também me criei, me criou.

 

Quando eu e o meu pai éramos homens feitos, nós nos amávamos e nos respeitávamos como crianças. Discordávamos, é verdade. E brigávamos, é verdade. Mas não ficávamos mais meses e meses sem nos falar. Quando éramos homens feitos, já havíamos apanhado um tanto da vida, perdido algumas batalhas e amores e casas e alfaias e também algumas ilusões. Envelhecêramos juntos. Meus cabelos brancos, os cabelos tingidos dele. Não havia rancor, não havia enfrentamento, não havia disputa; havia amor, havia cumplicidade. E ele me chamava pra ir lá jantar com ele e eu ficava feliz outra vez, quando triste; ou ainda mais satisfeito, quando contente. Eu comia e chorava, chorava e comia com muito gosto aquela noite, o prato imenso e fumegante de caldeirada com uma pimenta braba, pra lá de arretada. Foi a refeição mais emocionante da minha vida, brincava com ele.

 

Quando éramos saudade, eu chorava sozinho, de mim para mim. Na cama, feito criança, pra ninguém ver. E dizia de mim pra mim, baixinho pra ninguém ouvir, olha o que aconteceu. A primeira lágrima rolou meses depois, depois de tanto deliberar. Eu acho que ele se tornou aquele pontinho luminoso no firmamento, como o cavalo de olhos castanhos e tristes daquela história dele tão bonita, que, depois de anos e anos de deliberação, de cuidar dos afazeres e azáfamas da vida, da obrigação, dos filhos cavalinhos, um dia correu correu correu seu prêmio grande, seu grande prêmio e nunca mais voltou, quem sabe houvesse ganhado asas. E já imagino a feição contrariada dele agora, esse meu filho e suas coisas melosas e piegas.

2 comentários para “As idades da terra”

  1. Guilherme Azevedo

    Guilherme Azevedo

    Obrigado
    Querida Keli, muito obrigado, menina. Você tem toda a razão quando fala da saudade. Algo de tudo ficou, e isso é o que importa. Um beijo!

  2. Keli Vasconcelos

    Saudade, palavra única
    Guilherme, que texto incrível, cheio de nostalgia, de amor pelo seu herói, seu pai. Certa vez, ouvi que saudade é palavra única, principalmente para nós, brasileiros. Deixe que a saudade traga coisas boas para você, não somente aquela dorzinha do peito. Parafraseando Fabrício Carpinejar, saudade é para ser consumida rapidinho, colheradas precisas, senão ela nos consome. E você fez o certo: a saudade veio, você a consumiu fazendo um lindo relato. Muita luz! =D

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