Às vezes

 

Quantas vezes quase fomos atropelados porque a garota do outro lado da rua é sempre bem mais interessante do que o semáforo e o carro que vem feito uma bala em nossa direção.

 

Milhões de outras vezes quase morremos por elas de outras várias formas e nem sequer somos notados. Perdi a conta das vezes que quis convidá-la para ser meu par nos bailes da escola, mas não o fiz por causa de um bendito frio na barriga. Várias vezes lhe enviei bilhetes sem assinatura e nunca recebi uma única resposta.

 

Sempre me disseram que filmes não fazem bem, mas sempre os vejo, e sempre os odeio. Por causa deles fico esperando o carteiro jogar cartas de amor por debaixo da porta, ou passo o dia clicando com o mouse no botão de atualizar da minha caixa postal, com a absoluta certeza de que aparecerá um extenso e-mail com declarações da tão sonhada garota.

 

Tantas vezes lhe telefonei e fiquei em silêncio só pra ouvir sua doce voz do outro lado da linha. Todos os dias me sinto incompreendido. E na verdade só queremos alguém pra cochichar em nossos ouvidos canções silenciosas, ou nos acompanhar ao supermercado, ou ajudar a escolher roupas e cuecas no armário.

 

Na verdade só queremos alguém pra abraçarmos e chorarmos, apertarmos e dizermos quão importante e feliz ela nos faz sentir. Alguém pra dividir sonhos e ler poemas.

 

Sou um cara jogado na calçada com uma blusa xadrez, calças jeans e um par de tênis velhos. Sabe aquela garota que gosta da estrada, do vento soprando no cabelo? Aquela garota que dorme com a gente em qualquer pardieiro?

 

O frio berra lá fora, enquanto aqui, um calor desgraçado. Lágrimas descem como um alpinista desgovernado. É uma sensação de solidão. Não escolhi isto. É apenas um hábito.

 

*Paulinho Faria é escritor, dramaturgo e ator. Publicou o livro de contos “Pankada” (Editora Patuá, 2012; saiba mais sobre o livro clicando aqui.

 

14 comentários para “Às vezes”

  1. Germano Gonçalves Arrudas

    Germano Gonçalves Arrudas

    Sid and Nancy, muito bom gostei, valeu!

  2. Priscila V Sotana

    bem descrito!

  3. Tetsuo Okuda

    Afastado mas junto
    Sempre curto suas histórias…parabéns irmão!!!

  4. Vander J. Neves

    Pô Paulinho, e não é que é verdade? Já entrei de testa num orelhão lá em Piracicaba enquanto olhava a biomassa de uma garota do outro lado da rua, hehehe. Verdade, e não me esqueço porque o galo formado na testa ficou roxo durante uma semana. E tantas outras vezes quase morri por outras. Mas tudo valeu a pena, valeu mesmo! E pior, isso se tornou mesmo um hábito, por anos a fio. Você traduziu bem uma realidade de todos nós!
    Como sempre, mandou bem neste texto também.
    Abração brother.

  5. Tatiana

    Como sempre sabendo usar palavras… esse é o Paulinho Faria!!!

  6. Guido Carballo

    Só queremos alguem pra compartir
    Eu tambem quase fui atropelado ou quase bati o carro em muitas ocações. Nunca convide a garota da escola tambem pelo frio na barriga, e continuo com os frios ainda hoje. Por que sera tão dificil ter essa pessoa legal com que possamos compartilhar as coisas, só isso, compartilhar a vida …

  7. LINDAS PALAVRAS,NAIS QUAIS DEG

    Fantástico ,parabéns,sucesso e luz!!

  8. Lilian Sanches

    Genial Paulinho!!
    Vc e um sucesso absoluto 🙂 Saudades

  9. Fred

    Nice 🙂

  10. Camilo Irineu Quartarollo

    Pankada, eu nunca fui atropelado e nunca também fiquei com uma loira no trânsito, se as duas coisas se excluim mutuamente, deve ser isso. ahaha, nas, viu, uma vez uma loira foi atropelada perto de casa quando eu atravessei.

  11. Sérgio Toledo

    Grande Paulinho… muito legal… um artista completo.

  12. Ewerton Frederico

    Parabéns Paulinho…seja qual for a área que você se aventura, continua a ser como sempre um grande artista.

  13. Amélie

    Eu queria ser essa garota que canta canções silenciosas no ouvido do Pankada mesmo do outro lado do mundo. A que dorme abraçada em micro cama em floresta Norueguesa ou em quarto cheirando estranho no fundo do interior paulistano. Queria ser a garota do outro lado da rua, que fica aliviada ao saber que você não se deixou atropelar, a que busca em cada canto aquele que de camisa xadrez, e tênis velho encanta a cidade, qualquer cidade que seja, com seu jeito único.
    Queria ser ela……
    Lindo texto!

  14. Guilherme Bareno

    Muito bom!
    [b]Mandou bem Paulinho Faria.[/b]

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