Assassino dos meus sonhos

Olho este impávido móvel no canto da sala
Que devora parte de mim enquanto vivo
Vigilante posto em minha casa que sempre me avisa
Quando faltam dez minutos para todas as coisas

Sua antiga carcaça de madeira não enruga
Como enruga a pele do meu rosto,
Como enruga o tecido do meu corpo
Não enruga como não enruga a carne de minha avó na fotografia
Maldito aparelho que tanto preciso para me lembrar da liberdade que não tenho

Dentro desta caixa de madeira existe um olho
E espíritos calados nos seus giros
De pessoas padecidas desse mal que me assola
Relógio, impávido relógio, para quem o tempo não passa
Enquanto envelheço, remoça e se alimenta da minha pressa

Já vou que são seis horas e o patrão me espera
E o relógio me olha severo através do dia que ainda é tão novo
E me aponta a porta por onde lá fora o povo todo caminha

Mas me desvio entre a gente sem vida
E potentes automóveis, e pontes
E ruas que não me levam a lugar algum

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São sete horas exatas no relógio de ponto
E sete também na Praça Central
Por todos os lados a mesma indicação:
Sete horas no bolso do velho avarento
No pulso do moço os números digitais apontam
No rosto de todos está escrita a mesma coisa:
– São sete horas e nada mais se pode a não ser calar-se.

Há um terrível silêncio nesta manhã
Falam por nós as engrenagens
As portas de aço se levantam e as máquinas acordam
“Dormiram mais que os operários”
As escolas públicas soam suas sirenes
E acostumam os meninos aos sons das fábricas

Ninguém nota minha ausência, pois tudo tem pressa
O patrão, pelo vidro de sua sala que dá para o pátio,
Conta uma, duas vezes, mas somos muitos e se confunde
Seus olhos lhe enganam, mas não ao seu instinto
Seu ouvido apurado sente que uma nota ausente desafina a orquestra

Corro desesperado entre os transeuntes
Preciso achar a saída, ainda não perceberam os vigilantes
Que alguém ali está fora do contexto
Artistas riem das pressas e choram das indiferenças
Não somos livres quando a fome fala
– Pegam-nos pela barriga estes canalhas!

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Estradas que dão para longe dos relógios
São estas que os meus pés procuram
Há muito a perder caso eu fuja?
Mas não responda a esta pergunta
Que eu não tenho tempo para ouvi-lo
Piso um passo fora e já me chama a dúvida
Outro mais e a certeza me detém agora
Mais não posso, o horizonte escurece
E um despertador acorda minha cabeça

Vou levantar que as seis chegam logo
Nos próximos minutos está a cara mal lavada
O amor deixado pra depois e o pão comido às pressas

Há o ônibus e o cansaço dos pingentes
Uma greve a se fazer, há recessão
A política e o som ensandecido das caldeiras e das prensas
Há o olho do patrão de hora em hora
Há o carnê no fim do mês e a hora extra
Mas não há moratória ao operário

Em qualquer canto onde os relógios não existam
Estão os sonhos a serem descobertos
E à casa torno como o filho bom de minha mãe
Onde me espera o senhor de todos os segundos

É hora do jantar e está servido
É hora de dormir e o amor diz que já é tarde
O relógio lá em baixo é um fantasma
Seu toque soa como passos pela escada
E assassina os meus sonhos ainda em flor

Revólver em punho e um desejo
Escorrego pela escada sem ruído
Ou mato este estorvo ou a mim próprio
Não quero morrer sendo seu servo

Noto ainda um último badalo e a bala estronda no seu vidro
Jazem dois ponteiros adiante,
Assassino e volto ao sono sem remorso
Amanhã não vou para o trabalho 

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