Balada dos cães

Estive por lá muito tempo depois que a paisagem das duas principais avenidas mudaram. As árvores extensas, que se moviam com o vento forte de verão, não existiam mais. As cores das pequenas casas com portas para a rua mudaram. Agora, eram grades de portões cinza e garagem. Os antigos bancos de madeira foram retirados. Ficavam nas soleiras das portas e eram frequentados no fim das tardes de sol forte. A pequena mercearia estava fechada. Os litros de mel engarrafados e o cheiro de pão fresco, perdidos no tempo.

A casa de Augusta, de número sete-dois-um. Cheguei depois de quinze minutos em passos pela ladeira. O portão pequeno e azul. Desgastado por chuvas passadas. A campainha, toquei duas vezes e depois uma. Ela apareceu com as mãos na testa, como se não me reconhecesse. Seus olhos curiosos e brilhosos. A mesma cor de batom de antes e vestido curto com duas grandes flores estampadas. O risco foi todo por minha parte. Senti-me desajeitado e tentei corrigir os fios despenteados de meu cabelo.

Lembro de o céu clarear com a aproximação de Augusta. Estiquei a minha camisa para baixo e sorri. Ela estendeu os braços suavemente e não apareceram palavras. O convite para entrar. A cozinha era a mesma; paredes brancas e a mesa de madeira perto do armário amarelo de metal. Começou a me dizer somente com os dois olhos brilhosos. Foi quando chorou enquanto me serviu o café. Contei tudo. O que aparecia na minha boca. Frases rápidas e sem muitos adjetivos. A xícara fria na mesa. Ela não respondeu.

No portão, fizemos despedidas singelas. Tentei e o gesto que ela fez; feito abraço solitário no corpo imóvel de Augusta. Fiquei parado do lado de fora e ela girou as chaves para trancar o portão. Os três cães no quintal vizinho de piso de cimento latiam alto. Eles corriam para os lados com raiva. Dei as costas e caminhei. Os cachorros continuavam. O vento forte da rua. As poucas horas da noite e não havia pessoas na rua. Mudei de ideia na segunda esquina. Toquei muito a campainha da casa de Augusta. Os cães rangiam sem pausa, mas não apareceu ninguém.

O arrependimento subiu pelo meu estômago e parou na garganta. Sentei no chão com as costas apoiadas no portão. Os cães se acostumaram com a minha presença. Toquei a campainha algumas vezes. Toques longos. Quando levantei a ponto de ir, ela apareceu. Abriu o portão rápido e estava perfumada. Saltos altos e batom mais escuro. Maquiagem que deixava sua expressão mais leve. Nada disse. Ela passou por mim e um carro escuro parou; dentro dele, um homem alto e de cabelo claro. Os dois se beijaram. Foi a última vez que a vi.

 

 

Imagem: OK Poet (veja mais aqui)

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