Bito

 

— Nossa, que Changeman!

— ???

Prestem atenção na roubada em que me enfiei desta vez. Sou perito nisso.

 

Quem me conhece sabe muito bem no perrengue em que vivo. Tempos atrás, andei com a sorte perto de mim, descolei uma grana boa, até. A grande merda é que não sabia exatamente o que fazer com tanto dinheiro. Aquele velho ditado: “Quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza”.

Estava cansado de ficar de busão lotado pra baixo e pra cima. Metrô é asfixiante. Como a grana era boa, resolvi ir até a avenida Europa e comprar algum carro de lá. Claro, quem conhece essa avenida paulistana deve imaginar quanto de grana se gasta em algum carro por ali. Eu tava decidido, nem que fosse pra tirar da loja e revendê-lo no dia seguinte, mas queria, pelo menos uma vez na vida, ser dono de qualquer carrão.

Fui a uma loja de carros customizados, que havia muito tempo cobiçava. Monstruosos. À tarde fora ao banco e sacado todo meu dinheiro pra fazer bonito na hora. Puta cagaço andar com tudo aquilo no bolso. Uma maçaroca gigantesca de notas de 100 pilas.

Descolei um belo terno, pra fazer uma panca e não parecer nenhum assaltante, e comprei o possante. Paguei no ato e em dinheiro tirado do bolso, na frente do vendedor. O cara ficou estático, boquiaberto, quando viu. Verificou bem as notas e certificou-se de que não eram falsas. Puta sensação boa.

— É que sou ator – expliquei.

Lá estava eu, com o carango dos meus sonhos. Não acreditava. Era fim de tarde e não queria sair de dentro dele nem fodendo, vai que no dia seguinte realmente tivesse que devolvê-lo pra pagar o resto das contas. O sonho pode acabar. Fiquei rodando pela cidade horas a esmo. Comecei a me sentir cansado. Resolvi que ia parar na vila Olímpia, já que nunca fora lá.

Sempre ouvi dizer que as garotas mais cheirosas e lindas frequentam lugares ali; em contrapartida, são bem caras e chatas.

Tinha sobrado um pouquinho de dinheiro. Cheguei. Estava tudo lotado. Abri bem os vidros do carro para todos me verem. Pelo retrovisor, observava as pessoas com os olhos grudados na minha máquina possante. Parei no manobrista. Deixei a chave e adentrei o recinto, lentamente.

Do outro lado da pista, bati os olhos numa das garotas mais lindas daquela noite. Isso, depois de horas lá dentro. Tava escuro demais e não consegui ver detalhes. Aproveitei minha alta autoestima comprada e sorrateiramente me aproximei e cochichei em seu ouvido:

— A música aqui está muito alta. Gostaria de me acompanhar pra um lugar mais silencioso?

— Não.

Óbvio que ela diria isso. Faria seu jogo feminino. Nem precisei insistir muito e já estávamos esperando o manobrista trazer meu carro. Quando chegou, fiquei olhando-a de canto de olho pra ver sua reação, que foi… deixa pra lá.

Deixei o dinheiro e disse que o resto era comigo. Gentilmente, abri a porta do carro para ela, dei a volta pela frente e entrei. Ela me sorriu pela primeira vez naquela noite. Foi só assim, sob a luz de néon que vinha do retrovisor central, que pude ver que lhe faltava um canino. Fingi que não vira aquilo, pra não constrangê-la nem pra me desanimar. Era muito investimento pro dia, pra acabar assim. Foi então que ela soltou:

— Nossa, você é um Changeman!

— ???

Existia a possibilidade de ela ter um senso de humor bem aguçado, mas… Pra tentar descontrair perguntei se ela queria ouvir alguma música. Disse que adorava ouvir música no carro. Quis saber se tinha alguma preferência e ela disse que não. “Fodeu”, pensei. Deve ser do tipo que, tirando sertanejo, axé e pagode, qualquer coisa tá bom. Eu não tinha nenhum CD no carro, então coloquei na 102.1 FM. Pelo horário, era a menos mal. Estava tocando Beatles. Numa de puxar assunto, mandei:

— Você curte Beatles?

Pensou, pensou e depois de muito pensar:

— Bito, Bito, Bito… bom, assim de nome não tô muito lembrada, não, mas parece que é bom. Meio agitado, né?

Realmente ela não estava de gozação. Não tinha um humor aguçado e eu realmente acabara de me enfiar numa roubada. Sem novidades. Achei melhor levá-la pra casa e me livrar logo da encrenca. O foda foi quando ela disse onde morava. Pra lá de Itaquera. Praticamente uma viagem. Mais longe do que Campinas a Artur Nogueira, ou São Paulo a São José dos Campos. Um pouco mais foda, porque o trânsito desta cidade dispensa comentário. “Caralho!”. Lá fomos nós. “E agora? Tô fodido mesmo.”

No meio do caminho, eis que uma luz parece me iluminar e clareia uma ideia fenomenal.

— Você tá ouvindo esse barulho?

— Não.

— É alguma coisa estranha. Deve ser no pneu do carro. Merda, carro velho é assim mesmo!

Não dava pra terminar sem soltar essa.

Parei.

— Fica aí. Vou dar uma olhada deste lado.

Fui, disfarcei e voltei. Sentei novamente, respirei fundo meio impaciente e ela, numa de ser agradável, perguntou:

— E aí, o que foi?

— Deste lado não tem nada. Dá uma olhada aí do seu.

— Claro – sorriu.

Então reparei perfeitamente que não era só o canino que lhe faltava.

Quando desceu pra olhar, rapidamente bati a porta do carro. Travei e acelerei. Pelo retrovisor a vi acenar e depois, desconsolada, abaixar a cabeça. Achei até engraçado. Ela estava perto de uma estação de metrô.

Quantas vezes não vi o sol nascer esperando por um busão, enquanto vários playboys, com seus carros possantes, passavam por mim e tiravam um sarrinho? Ela não ia ficar na mão. Em meia hora, os metrôs começariam a funcionar. Não estava sendo nada cruel nem queria me vingar. Só não ia viajar de madrugada. Eu tava cansado pra cacete. Afinal, tivera um dia de cão.

12 comentários para “Bito”

  1. Keli Vasconcelos

    Saudações pra lá de Itaquera
    Paulo, sensacional o texto, muito bom! Seja em SP, Itaquera, SJC, ouça muito Bito, cara, de possante ou no busão!

    Parabéns!

  2. Johnnas

    É isso aí Paulinho, muito obm cara, sucesso nos próximos.
    Abraço.

  3. Guilherme de Sá

    Aeeew bigode! Me deveu uma carona agora, ai de vc se tiver vendido o possante, vou ficar possesso!
    Grande abs!

  4. Pedro

    Há males que vem pra… foder
    Muito bom, Paulinho.. ri bastante… difícil é acreditar que isto mesmo ocorreu… porque é muito bizarro…tudo, da compra do carro `ida ao roteiro de barzinhos… e pegar uma banguela? FODA!!!

  5. valeria

    q humor acid…rss gostei

  6. Priscila

    Nossa que changeman!!!!!kkkkkkk

  7. Clovis Rocha

    Valeu Paulinho! To dentro. Clovão.

  8. André Auke

    Mas e ai? Vendeu ou não o carro depois? Rs.

  9. Ely Barbosa

    Pois é velho, a vida é ingrata, quem não tem nada não pode se dar ao luxo de ter tudo.

    Se bem que você tendo um dia de cão e ela precisando de um canino novo, talvez você tenha perdido uma boa oportunidade, pensou nisso?

    Abraço.

  10. Vander José das Neves

    Pô Paulinho, muito bom cara, e acho que esse realmente foi um dos melhores contos que li nos últimos tempos brother. É de lembrar Bukowsky com seu fino senso de humor, hehehe. Muito legal, parabéns!

  11. Ana

    ,,,
    Ai Pauloooo… fala sérioooo… não, não foi cruel… arff…

    Mas que ri, ri e muito! E sério… SP a SJC é pertin pertin…

    Bjos

  12. Carlos Brazil

    Bito forevis…
    hahaha…

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