Bullying or Love

É bom saber que existem vereadores – já eleitos – preocupados com a violência arraigada nas escolas da cidade de São Paulo. O bullying (ato de violência física ou psicológica) faz parte da convivência de muitos alunos, mas não se compara ao devastador encontro dos jovens com as drogas lícitas e ilícitas, com a gravidez precoce e com algo ainda mais violento: uma educação que tem mergulhado os estudantes de escolas públicas na mais completa ignorância.
 
Foi distante da Câmara Municipal, por volta da década de 1990, que aconteceu um caso num bairro da periferia de Osasco, na Grande São Paulo. Um professor necessitava completar sua jornada e assim passou a freqüentar semanalmente a Diretoria de Ensino em busca de algumas aulas de língua portuguesa.
 
Após semanas de uma procura sem nenhum êxito, o professor decidiu assumir aulas de língua inglesa, que haviam sido sucessivamente rejeitadas por vários outros profissionais. Seu maior receio era o de não corresponder as expectativas próprias e as dos alunos.
 
A fama da escola (do período noturno) não era das mais acolhedoras e restou ao professor a tarefa de lecionar língua inglesa para alunos que faziam da rebeldia o idioma cotidiano.
 
No primeiro dia de aula, deparou-se com um rapaz com um walk-talk, que, após breve apresentação, iniciou conversa com a pessoa que estava do outro lado da linha. A voz masculina perguntou o nome do professor e sua disciplina, e o professor, por sua vez, não fez nenhuma pergunta e deixou um convite para que seu ouvinte assistisse a uma de suas aulas. O rapaz do outro lado da linha disse: “Você é meu truta”. E assim foi proclamado o protegido da voz de alguém.
 
Com o passar dos dias, o professor fez tentativas de aproximação dos jovens com a língua inglesa. Tarefa difícil, diante de corpos esquálidos e olhares entorpecidos. Tomados pelos efeitos do consumo de drogas. As mãos trêmulas mal conseguiam apoiar o giz na lousa e escrever a frase: “We have very to exist! (Temos muito para viver!).
 
Em uma das salas, uma moça exibia seus olhos verdes e uma barriga que anunciava a chegada de mais uma vida ao planeta. As semanas deram lugar aos meses, e o professor seguia, disposto a falar de amor em qualquer língua.
 
Mas, em uma noite de calor intenso, uma conversa na sala dos professores deixou o ar carregado. O professor ouviu algo sobre disparos de arma de fogo contra um rapaz que fora aluno da escola.
 
No atropelo do sinal, rumou para a sala de aula e, após iniciar seu trabalho, notou a ausência da menina de olhos verdes e teve uma dura resposta. Os disparos foram destinados a ela e ao seu namorado – o jovem citado na sala dos professores.
 
A moça fora atingida de raspão nas pernas, mas o rapaz não tivera a mesma sorte. O professor deixou de lado a língua inglesa e, consternado, disse aos alunos que era um momento de tristeza, sim, mas que duas vidas precisavam de apoio e eles poderiam ajudá-las de alguma forma.
 
O professor arrecadou uma pequena quantia de seus alunos e combinou um encontro em frente à escola (em uma noite de terça-feira) com todos os colegas de sala da moça.
 
A idéia era entregar uma lembrança a ela e ao bebê e, ao mesmo tempo, disparar uma porção de abraços em direção ao seu corpo gestante. Em um hipermercado, próximo ao centro da cidade, o professor comprou um jogo de mamadeiras, porque julgou (juntamente com sua mulher) ser algo que a futura mamãe e a criança usariam por muito tempo.
 
Na hora e dia marcados, o professor foi até o local com o jogo de mamadeiras debaixo do braço, mas os alunos não apareceram. Ainda que as aulas (por algum motivo) estivessem suspensas naquela noite, o professor esperava contar com pelo menos um aluno para guiá-lo até a casa da moça.
Como ninguém apareceu, o professor seguiu a pé por uma avenida próxima à escola e, já quase desistindo da procura, ouviu o grito de um aluno da escola que, felizmente, sabia o caminho. O rapaz explicou todas as ruas direitas e esquerdas e descreveu como era a fachada da casa, já que os dois não sabiam o nome da rua e o número da residência.
 
Quando finalmente o professor encontrou a casa, bateu palmas e, do seu interior, surgiu um rapaz jovem (o irmão da moça), que agradeceu o jogo de mamadeiras e disse que sua irmã estava na casa de uma tia em outro bairro.
 
O professor explicou que foram os colegas de classe os responsáveis pela modesta lembrança e pediu que dissesse a ela para não deixar os estudos. O abraço não foi possível.
 
Alguns meses depois, o professor admirou a moça em um corredor, próximo à entrada da escola. Disparou um sorriso e um violento abraço no corpo dela.
 
Você pode mandar um abraço para o autor: [email protected].

3 comentários para “Bullying or Love”

  1. Nicolly Dos Santos Cesario

    parabens
    [i][/i]professor adorei o que você escreveu espero que escreva sempre pois sempre irei ler [b][/b]professor que você continue com esse bom humor que por onde você passar deixará saudades por que o senhor é um otimo profeesor

    beijos e abraços de sua aluna Nicolly da Escola Tenente Alipio Andrada Serpa.

  2. Fernanda e Caroline

    Nós achamos uma história muito comovente e interessante em relação a atitude dos alunos e principalmente do professor, que mostrou ter um carinho muito grande para com os seus alunos.
    E nos mostra o vedadeiro valor da amizade.
    Beijos,abraços e muito sucesso em sua vida!!
    De suas mais novas alunas!!!

  3. Mariana e Marina

    Mandou bem professor ;]
    amamos ! Beeeijos

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