Cali Cool sem noção

Cali Cool é destas moças sestrosas, que andam naturalmente mostrando e fazendo exaltar seu rebolado.

Cali Cool é loura, ou ao menos assim se apresenta para o mundo, que é o que parece mais gostar de fazer, e o faz mesmo com gosto, para não deixar pedra sobre pedra quando passa.

Fala, assim, como um trio elétrico, sem se importar se está incomodando os outros ou outras simples mortais que por ali tentam se concentrar, ou viver sua vidinha em paz.

Cali Cool vende, troca, sapateia e pratica malabares nos faróis.

Cali Cool se vira nos quarenta???

Cali Cool poderia ser feliz, se não tivesse tanta vontade de parecer feliz e bem resolvida.

Cali Cool conta sua vida inteira com detalhes, mesmo para quem não tem interesse nenhum em ouvi-la.

Cali Cool abre os olhos, e bem cedinho, pela manhã, já pega seu celular amigo, que parece colado à sua orelha, e vai, toc-toc, caminhar pelos corredores e pelas varandas para mostrar que é hiperativa e competente, falando bem alto e em mau tom.

Cali Cool se reinventa a todo instante. Traz pessoas mil à sua casa durante todo o dia e noite e madrugadas e sempre falando ao seu celular, amigo da orelha.

Cali Cool tem duas pets à sua imagem e semelhança, que certamente foram paridas pela Barbie e pelo Ken caninos.

Segundo Cali Cool, jamais pisaram o chão… Principescas que são as meninas peludinhas, que ficam histéricas quando o cão plebeu, pobre coitado, sai para fazer seu xixi ou tomar um sol, acorrentado, para não perturbar Cali Cool.

Mas Cali Cool não refresca… Cali Cool provoca o pobre peludo, e inclusive agora deu para filmar sem licença o cão “sem raça definida”, e até sua dona, mesmo sob protestos.

Cali Cool precisa mostrar para as amigas como o peludo é perigoso… mesmo acorrentado.

E se ele se soltar??? E se ele morder Cali Cool???? E se, se, se, se…

Cali Cool precisa de agito. Cali Cool é barraqueira.
Cali Cool gosta de um veneno. Cali Cool é intrigante.
Cali Cool não tem escrúpulos. Cali Cool não tem limites.

Cali Cool usa mangueira para lavar seu corredor.
Esguicha, esparrama e esbanja água sem se importar com crise…

Cali Cool gasta 16 litros de água por segundo com sua mangueira mágica.

Várias vezes ao dia.
Mas Cali Cool não se importa.
Cali Cool é o KARA!
Cali Cool pode tudo. Mas os outros não podem nada.
Cali Cool não gosta de silêncio.
Cali Cool gosta do som da própria voz.
Cali Cool não se interioriza.

Porque Cali Cool é muito atarefada.

Cali Cool negocia quinquilharias exportadas e importadas.

Cali Cool vende vacinas.
Cali Cool bate panelas.
Cali Cool é contra a corrupção.

Cali Cool tem um amor bandido. Que, vez por outra, aparece para estar com Cali Cool.

Mas Cali Cool não se importa. Cali Cool tá disponível.

Cali Cool não é feminista. Cali Cool é descolada.
Cali Cool sabe das coisas. Cali Cool é muito esperta.

Cali Cool é muito simpática. E faz mesmo muita questão de parecer simpática.

Cali Cool só fala no diminutivo. Tal é o medo que tem de se agigantar e crescer.

Pobre Menina Cali Cool.

Pobre Cali Cool sem noção.

Tudo que Cali Cool quer é ser amada. Mas Cali Cool não sabe disto.

Cali Cool é uma elipse desmontada e remontada que a vida deixa passar.

Cali Cool, certamente, é mais uma mulher sofrida. Que deve ter se apavorado com a dura realidade. Então a pavoneia, como Pollyanna, deixando Alice no chinelo.

Cali Cool criou seu próprio país das maravilhas.

E, por lá, a ética passou batida.

Cali Cool tá preocupada em exercitar sua língua. E seu dedo em riste não admite réplicas.

Porque teria de fazer Cali Cool reconhecer virtude nos outros. E isto é impossível para Cali Cool. Porque Cali Cool já não sabe quem é ela de verdade. Tantas e tantas máscaras já vestiu e trocou, para agradar a todos e todas, que perdeu a chance de descobrir verdadeiras virtudes em si mesma.

Porque, então, Cali Cool deixaria de ser Cali Cool para se tornar verdadeiramente Cool.

E, isto, Cali Cool não suportaria.

 

Créditos da imagem: deviantart.net

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