Caminho. Mas caminho só

“Tudo em minha volta

Anda às tontas

Como se as coisas

Fossem todas

Afinal de contas”

Paulo Leminski

 

Estou tentando entender o porquê desta sensação de solidão, apesar de tantas manifestações pela cidade, pelos Estados, pelo país e pelo mundo afora.

Leio os jornais, aturdida, e as vibrações dos clamores me pegam no físico e no emocional, não necessariamente nesta ordem. Será que sou mesmo este ser fragilzinho?

São listas, passeatas, encontros, atos, comícios, e-mails, memes, #hashtags, troca de farpas aqui e ali. Crônicas, matérias. Denúncias e mais denúncias. Delações. Ações e reações.

Me sinto só.

Passeio por entre as pessoas como se estivesse vendo um filme sem sons.

Primeiro foi enjoo. Náusea mesmo. Vômito de verdade.

Depois minha voz sumiu. Como se a realidade fosse tão estapafúrdia que não me restaria senão silenciar.

São guerras numerosas, internamente travadas e que literalmente me travaram. E também me travaram literalmente.

Resistência? Sim. Mas, ainda assim, preciso que ela me maravilhe.

Vou prestando uma atenção sonolenta no meu Brasil que fabrica sua história com a precisão de um sonâmbulo.

Observo os meus pares, aqueles que hoje olham com desalento para o pesadelo medieval que assola o impávido colosso, que hoje ronca em berço esplêndido.

E nos deixa insones.

Não se esforce para provocar intrigas. Elas se impõem.

Estamos na Era das Traições.

Das manobras. Do maldizer. Das fofocas. Dos boatos. Invencionices de um conto que aumenta um ponto.

Tempo de mesóclises e misoginia. Tempo de estupros físicos e morais.

Nada do que se lê, vê e ouve é confiável. O Big Brother está atento e a vítima pode ser você, e é você.

A tal da Justiça míope e capenga se arrasta pelos entulhos da burocracia, fazendo inveja a Jó.

Suaves inclinações que sobem e descem, mantendo juntas em um só movimento a revolta e a derrota.

Não há vencedores nesta batalha. Só mortos e feridos. Um tempo de desprezo mútuo.

Eis o preço a pagar por autenticar a fábula, para uma sociedade que não elegeu o passante e este, com certeza, sim, se sente um estrangeiro. E é.

E por aí vai…

Por alguns momentos, cheguei a crer na exaltação de me desafiar, de me expor ao inimigo(?) ou aos ex-amigos (?) apenas por temeridade, sem me preocupar com brucutus e fascistas, racistas e machistas, só pela alegria(?) de me fundir no povo-irmão(?), para me esquecer de todo o resto.

Acreditando numa resistência elementar que não tem pertencimento algum.

Pego os coletivos. Me misturo aos simples. Aos que não têm ideia alguma da política. Mas sabem apenas o que fazer, e como, quando os especuladores lhe enviam os dragões para feri-los.

Todos os lados esquerdos, direitos e do meio, absorvidos em entrar na desordem que anuncia o perigo e estimula a audácia.

O filme é bizarro. Diria, mesmo, fantástico. Mas não é ficção. É uma realidade que nos esbofeteia.

Tão destruidora como o tempo e a morte.

Os aventureiros e mercenários roubaram a cena. Romanceiros grotescos e de moralidades trágicas.

Um espasmo que volta este país contra si próprio e o faz quando ele procura se libertar.

E se repete, e se repete, numa contratura apavorante. Numa esperança desesperada.

Dê-me paciência, Jó. A santa paciência.

 

Retomo a voz rouca e a pena. Claudicando e tossindo em meio à efervescência da infelicidade.

Porque, ainda que o garrote me esmague a garganta, sigo. Ainda que só.

Lá longe o desejável é a loucura.

Porque entre a revolucionária insistente e a poesia não pode haver ruptura.

A liberdade não se transmite.

Conquista-se.

 

chaplin tempos modernos 2

 

 

Imagens:

  1. Cena do filme “Vida de Cachorro”, de Charlie Chaplin
  2. Cena do filme “Tempos Modernos”, de Charlie Chaplin

 

6 comentários para “Caminho. Mas caminho só”

  1. Shellah Avellar

    Shellah Avellar

    Queridos e queridas que tiveram a delicadeza de comentar e dar um apoio à esperança que resiste.. Bom saber que alguns(as) se solidarizam e me oferecem seu abraço neste momento grave de nossa história cuja lama respinga em todos nós.O mal-estar ainda reina,Revira o estômago e me faz questionar muitas coisas. Mas lendo vcs ,resgato um "alka-seltzer" kósmiko e tento "desesperadamente" me manter sóbria apesar dos descalabros nacionais.bjkas

  2. Mario de Freitas

    Cada dia que passa a realidade nos surpreende, supera qualquer ficção. Os que sempre roubaram deram o golpe mestre. E nos fazem crer que somos nós os culpados pelos descalabros do país. Nos dá asco ver a cara de pau dos novos governantes. Vamos limpar a garganta e seguir gritando em alto e bom som as verdades, como diz você, a esperança é nossa fortaleza, nossa paz, nosso bálsamo. Sigamos em frente, caminhemos juntos, Bjs.

  3. Railda

    linda poe-reflexão, continuae produzindo e a voz vai voltar.

  4. Carla Martins

    Como sempre caprichosa e atenta nos mínimos detalhes ao produzir! Texto incrível ,claro ! Estamos juntos neste barco, e tenho a estranha mania de ter fé na vida! Vamos tentando crescer no meio disso tudo de maneira pacifica.

  5. Keli Vasconcelos

    Keli Vasconcelos

    Que texto incrível, Shellah. Não percamos a esperança, mesmo no asfalto de indiferença e de maldade. Esperança é a nossa fortaleza, nossa salvação, nossa paz, esta que mora dentro de nós. Mesmo que esse bálsamo esteja fora de nosso alcance – e de nossa possibilidade. Beijos!

  6. Rafael

    Lindo, simplesmente!

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