Campo de girassóis

 

Nos últimos anos de vida, minha mãe quis saber muito do paradeiro dos seus meninos e nós estivemos sempre por perto. A verdade é que já não somos tão meninos assim e a vida nos manteve ocupados com os estudos, afazeres profissionais e famílias.

Nossa mãe, a Dona Ivete, foi de uma simplicidade sem tamanho e, mesmo sem ter contato com as letras e os números, foi ela que nos ensinou a dividir. Um pequeno ovo de Páscoa, um pedaço de carne, um prato de arroz e feijão, um abraço – tudo oferecido com seu jeito mineiro de ser.

Em uma das últimas visitas (ela almoçava), espetou um pedaço de frango e ofereceu-o – mesmo atordoada pela doença, a memória afetiva, o amor materno estavam presentes. Foi uma mulher que se dedicou aos filhos – nunca vesti roupa suja, não passei fome, jamais envergonhamos nossos pais.

Somos pessoas de bem e optamos sempre pela honestidade (traço de caráter deixado em testamento pelo nosso pai) – não convivemos com a maldade, temos um pé atrás com gente gabola, aprendemos a sorrir nos momentos difíceis, respeitamos nossas amizades – mas não somos perfeitos.

Talvez leve muito tempo para superar a ausência do Seu Julio e da Dona Ivete. A verdade é que um sem o outro (em Minas, no Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Osasco) não faz nenhum sentido.

Peço que ninguém fique triste. Dizem que mineiro mente muito: hoje de madrugada um anjo cochichou no meu ouvido que eles estão juntos.

Disse que foram vistos em um campo coberto de girassóis, idêntico ao que se vê entre as cidades de Araxá e Sacramento, lá pras bandas das Minas Gerais. Seu Julio está com um violão e não se cansa de cantar: “Fiz uma casinha branca/ Lá no pé da serra/ Pra nós dois morar…”.

Família Valentin

7 comentários para “Campo de girassóis”

  1. Sheila Silveira

    Pelo período em que tive a honra de ser uma Silvete, como o próprio José Arrabal assim me chamou, pude guardar diversas lembranças de alguém que me ensinou mais do que os segredos da nossa língua. Guardo lembranças de alguém que me ensinou sobre a vida. Me recordo em especial de um homem-menino que um dia nos falou sobre D. Ivone com palavras carregadas de amor, carinho, saudade e respeito. Aquele dia serviu para todos os jovens que o escutavam, que não é vergonha dizer a um pai e a uma mãe o quanto são amados. Mais ainda, que não é vergonha, mas sim uma dádiva poder pedir todos os dias a bênção àqueles que tanto te amam.
    Tenho certeza que o Seu Julio e D. Ivone estão no mais belo dos campos de girassóis…

  2. Jennifer Damaceno

    Incrível
    [b][/b] Novamente com mais um dos seus comoventes… Maravilhoso ainda mais quando se sabe a história que se procedeu a situação. Os dois estão em outra bem melhor e sem dúvidas felizes e descansando.

  3. Sílvio

    Sílvio

    Lembro
    Li o texto no velório de minha mãe.

  4. Tamires

    Belas palavras Silvio Parabéns.

  5. jailton gomes

    oi professora ..linda historia…nao sei se vc lenbra de min..do jailton da oitava seria do tenente alipio..

  6. Gabriela Fontes

    Sílvio, belíssimo texto, com uma mistura singela de emoção, razão e espiritualidade.

  7. Flávio

    Silvio, que linda homenagem. Fiquei tocado pelas suas palavras e pelo amor demonstrado.

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