Caravan 1983

 

Movimentou os braços acima da cabeça de cabelos escuros e pegou rapidamente um copo cheio de vinho tinto sem nome de uva, apenas a descrição no rótulo: “Vinho tinto de mesa suave”. Sentou-se na cadeira de madeira com marcas de tinta branca da última pintura do teto. Reclamou do calor, do comercial da televisão e da extensão do verão sem-fim. Da janela, enxergou as cortinas dos apartamentos. Azul, rosa, laranja, lilás e persianas. Sua voz ecoou nos três pequenos cômodos do apartamento, não por algum motivo ou pessoa, sabia do monólogo que tornou em pouco tempo monossilábico. O cinzeiro de vidro fosco, parecido com a tigela de salada. “São iguais! Não deveria comprar um cinzeiro idêntico. Não.”

 

Parou de fumar no dia da partida. Sentiu uma bola tomar conta de sua garganta na partida de Célia. Salto alto, de frente para o espelho do armário, fazia lados com os fios de cabelos. Ele, sentado na ponta da cama, clamou muitas palavras gastas. “Fique.” Empenhada na decisão, não soltou uma resposta, um clarão de nada escureceu as paredes do apartamento. Malas, batom, coração. Tudo no corpo dela. Ele jogou o cinzeiro na parede segundos depois que a porta fechou, em pedaços. Comprou outro na volta do bar, já era de manhã e suas pernas perderam o equilíbrio pela quantidade de drinques, ombros de garçons desconhecidos e confissões agonizantes. Odiava aquele cinzeiro e transmitiu o sentimento ao cigarro.

 

O telefone no canto da sala, preto e encostado ao lado do sofá. Abriu uma garrafa de vinho e tomou três copos, o último foi quase cheio e sobrou um pouco para depois. Desceu as escadas e o sol forte, suou em dez minutos de caminhada. Parou na padaria Café & Pão, a única caracterização que correspondia ao nome era o fato de vender pães. No mais, um bar; com bancos, balcões e balas de banana açucarada. “Uma cerveja.” A aproximação do velho de cabelos poucos e grisalhos, cadeira de rodas vermelha. Vestia uma blusa preta de longas mangas e gorro preto. As unhas pontudas e amareladas, grandes olhos azuis. Apesar de sujo, não poderia ver um mendigo nele. Uma espécie de decadência europeia, voz de canto, sua voz se movia mais do que os lábios. “Quando disserem mal de você, pense. São os átomos, eles retornaram para as bocas que o soltaram negativamente. Não há com que se preocupar.” O velho destoou em sua cadeira vermelha, virou e foi em direção ao caixa.

 

A cerveja fez seu estômago arder, apesar de ter comido castanha de caju enquanto bebeu. Virou duas ruas em direção à Rua Conselheiro Crispiniano, seu prédio de três andares estava próximo. Na esquina, uma Caravan preta. Aproximou-se e leu a placa com a oferta. “Vende-se, ano 1983, lindona e em perfeito estado, documentos O.K.” Leu novamente e rodeou o carro, mirou os pneus, a pintura e os bancos. O dono era alto e suas mãos finas. “Preço bom para levar hoje.” Chegou ao portão de seu prédio, correu pelas escadas e abriu o armário do quarto. Jogou as roupas no chão e pegou a mala marrom que estava no fundo. Contou as notas, recontou e sorriu. Desceu e chegou ofegante para o homem alto: “Está tudo aqui, me passe o recibo”. Apertaram as mãos e selaram a venda. Ligou o motor, acelerou forte antes de soltar a embreagem. Viadutos, prédios, ruas. Avenida Ipiranga, Paulista e Nove de Julho. Janelas abertas e o vento em seus lábios sorridentes. Sentiu-se feliz quando as luzes dos postes anunciaram o início da noite.

 

Estacionou devagar, desceu, olhou a Caravan 1983, tateou o capô e sentiu o motor quente. Abriu a porta do apartamento e o cheiro de cigarro, Célia sentada na cadeira de madeira. “Pensei e decidi ficar.” Ele olhou as pernas, a mala e respondeu: “Não quero, vá embora”. O silêncio se desfez com o andar feminino em direção à porta. Virou e antes que ela indagasse soltou a voz e a curta frase: “Parei de fumar”. Depois do barulho do fechar da porta, ele pegou o cinzeiro e jogou contra a parede. Deitou na cama e imaginou o caminho do dia seguinte com a Caravan 1983. Odiava aquele cinzeiro.

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Torre, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.

Comentário