Carrinho de feira

Serginho adorava o sábado. A sua principal ocupação era carregar as compras das senhoras que saíam daquela enorme serpente de lonas azuis e laranja e vinham puxando seus fardos de frutas e legumes.

As donas de casa já conheciam o garoto. Umas entregavam as compras e um dinheiro como caixinha e pediam que ele levasse em casa aos cuidados do marido ou do filho, enquanto elas iam ao mercado ou ao cabeleireiro. Outras voltavam para a morada em companhia de Serginho, que levava a sacola ou o carrinho movido pelo dinheiro que dali a pouco iria ganhar.

Mas ele gostava era quando trabalhava sozinho ali na esquina da feira. É que com o tempo vieram uns moleques e Serginho teve de dividir o espaço.

Antes ganhava dinheiro suficiente para ajudar em casa, jogar fliperama, comer uns doces e ainda guardar umas moedas em seu cofrinho.

Hoje, depois de dar um trocado para a mãe, precisa escolher o que vai fazer com o que sobra: fliperama, doce ou cofrinho?

A sorte é que muitas senhoras não confiam as suas compras aos outros. Se o Serginho não está lá, elas preferem esperá-lo ou mesmo carregar sozinhas. Não fosse isso, ele estaria perdido, graças à quantidade de moleques que veio. Havia sábados em que o revezamento não chegava a contemplar a todos. A culpa não era dos colegas de Serginho. Os próprios feirantes estavam perdendo fregueses. Ali pelo bairro os mercados já não se contentavam com vender somente o arroz, o feijão, a mistura e o leite. Inventaram um hortifrúti que disponibilizava frutas, legumes e verduras a semana inteira.

Alguns comércios, como padarias, bazares, depósitos de materiais de construção, farmácias e avícolas, aproveitaram o crescimento da economia e reformaram o imóvel, arrumando mais espaço e colocando à venda roupas, tênis, temperos e pastéis fritos na hora.

Aí o cidadão não precisava aguardar o dia da feira para comprar as suas necessidades da semana. Só mesmo as pessoas mais românticas e conservadoras cumpriam o tradicional passeio naquele corredor de gritos e de vários cheiros.

— Moça bonita não paga…

— Olha o coentro, olha o coentro…

— Aqui, dona, ó, a banana tá tão barata que eu vou comprar de mim mesmo…

Os sábados não eram adorados por Serginho somente pelas caixinhas que ele recebia. Fosse isso já teria trocado a profissão pela de olhador de carro nas missas da igreja.

Ali tinha outros motivos. Era certo que algumas mulheres, além das moedas, também davam, como pagamento a ele, uma manga ou um pedaço de melancia. E as mais novas chegavam até a beijá-lo no rosto. Esses beijos davam-lhe uma sensação de homem, mesmo tendo somente nove anos de idade. E quando acontecia de alguma senhora pedir que ele levasse as compras até dentro da casa?

Cansou de ver as filhas só de baby doll ou de shortinho andando pelos cômodos, indiferentes à sua presença.

Mas essas cenas não eram tão instigantes para ele quanto eram para um adulto. Instigava-o levantar às sete da manhã e ir para a esquina da feira e contemplar aquele espetáculo do povo a passar, com roupas e estilos variados, as pessoas cumprimentando-o:

— Oi, Serginho!

— Bom-dia, Seu Mané!

— Olá, rapazinho!

— A bênção, Dona Lindalva.

E, no fim da feira, ainda ganhava mais um trocado e uns pastéis ajudando os feirantes na desmontagem das barracas.

Mesmo com a pouca idade, tinha consciência de que aquele seria um dos melhores momentos de sua vida. Além de não ter grandes responsabilidades, também faturava um dinheirinho e gostava do que fazia. Ainda não passou pela sua cabeça como será o futuro das feiras-livres. Pensa que quando crescer e virar pai de família vai querer o fim de semana livre para ir à feira com os filhos, comer pastel, comprar frutas, ouvir os pregões das bocas dos barraqueiros e olhar o povo a passar. Aliás, pensa em reservar um dinheiro para comprar seu carrinho de feira. Quando casar, já terá esse utensílio em mãos.

 

 

Imagem: Carroça Cultural (www.carrocacultural.com.br)

 

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