Carta (sem pedágio) para o Henfil

 

 

Querido Henfil,

Escrevo outra vez para prosear um bucadim de tudo, ao som de “Casa no Campo”, do Zé Rodrix e Tavito, na voz da Elis Regina. Aproveito para falar um pouco da transição do regime autoritário para a tão esperada “democracia”.

As eleições diretas foram implantadas e a nossa urna eletrônica é de primeiro mundo – tecnologia de ponta. Só para você ter uma ideia, os milhões de votos são apurados rapidamente e, algumas horas após a votação, já é possível saber os eleitos que vão sacanear a gente.

As urnas são moderníssimas, mas alguns políticos continuam vidrados em dinheiro público, adoram uma licitação, conchavos, contas no exterior, carros importados e tudo que eles consigam esconder do Leão, como nos antigamentes. Lembra do Leão? Não o goleiro, o do imposto.

Eta bicho bravo! Não pode ver um assalariado que avança e arranca as pernas do coitado. Tem gente que o trata com pires de leite e diz que não passa de um gatim. Tem gente que não teme nada.

Outro dia deu nos jornais e na imprensa toda que um cara escondeu dinheiro na sunga e, como se fosse o Tarzan, mergulhou na direção do Leão e arrancou sua orelha esquerda com uma dentada. O cara é macho!

E por falar em esquerda e direita, é importante contar que bicho deu. Após o mandato do acadêmico, elegemos um atleta, um homem que parecia o Cyborg, aquele da série de TV com o Lee Majors. Pois é: o cara corria, saltava com e sem paraquedas, escalava montanhas, praticava caratê, judô, capoeira, pula-carniça, amarelinha, queimada, passa-anel, pega-pega e, principalmente, esconde-esconde. Ufa!

Dizem que não gostava muito de cinema, teatro, artes plásticas, literatura e da Música Popular Brasileira. As pessoas falam demais… As pessoas são muito más… O homem não conseguiu terminar o mandato – umas denuncinhas – e passamos a ser governados por um presidente que tinha e tem topete.

A verdade é que um corria muito e o outro era muito devagar. Mas foi em 1995 que, com o consentimento do Ibama, elegemos um representante legítimo da fauna e da flora brasileira: um tucano.

Alguém intimamente ligado aos problemas ambientais todos, alguém sensível o bastante para superar os problemas das populações indígenas, alguém preocupado com a formação intelectual de sua gente, uma ave brasileira até o último penacho de sua calda.

Dizem que, em matéria de educação, o tucano deixou um pouco a desejar – dizem que, além dos analfabetos conhecidos, também surgiram outros, os funcionais, gente que frequenta os bancos escolares e, após concluir o ensino fundamental, médio e até superior, não consegue interpretar um pequeno texto. Que gente perversa!

Tem muito boato por aí. Contam que um professor – em uma escola pública da Grande São Paulo – perguntou o nome de um autor representativo da literatura brasileira e um aluno respondeu imediatamente: “Tarcisio Meira”. Qual é a graça? A diferença entre ator e autor é apenas a letra u, não é?

Tenho certeza de que o tucano rebateria todas as críticas com uma oratória e uma verve dignas dos pensadores mais significativos da Grécia Antiga. Mas jovens e adultos estão mergulhados na ignorância, e a mudança pede mais que discursos.

Confesso que entendo muito pouco de bicho e acho estranho o que estão dizendo sobre o tucano que tava governando São Paulo – contam que não se pode falar em pedágio perto dele. Se alguém tiver a petulância de falar a palavra pedágio, recebe logo uma bicada (e olha que o bico é grande) e uma carta de demissão.

Acho que o tucano não é um bicho tão democrático assim. O que você acha? O Ibama que me perdoe, mas o tucano está merecendo um cascudim na sua cabecinha.

Bicho tucano não gosta também de jornalista, porque esse povo quer saber de tudo. Onde já se viu perguntar sobre pedágio, o preço do pedágio, se é preciso ter tanto pedágio, se tucano paga pedágio, se a gasolina vai subir de preço, se político tem ficha limpa, se o cidadão cumpre o que prometeu em época de campanha e se as pessoas merecem votar em pessoas mais dignas. Repeti muitas vezes a palavra pedágio?

Tudo bem. Prometo que não falo mais sobre pedágio.

Mas será que político tem que pagar pedágio para entrar no céu? Imagine São Pedro em frente ao portal e o tucano com o bico cheio de alpiste para pagar o pedágio. Será que São Pedro é tucano também? E a Constituição assegura o direito de ir e vir, desde que o cidadão pague o pedágio e não reclame. Cuidado com o bico do tucano.

Outro dia escrevo para falar mais sobre educação e menos sobre política e pedágio.

Imenso abraço aqui do Brasil,

Jornalirista

Clique aqui e leia também o primeiro texto da série, “Cartas para o irmão do Betinho”.

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