Cartas para o irmão do Betinho

 

Caro Henfil,

ao som de “O Bêbado e a Equilibrista”, do João Bosco, inicio farta correspondência com você, que está no éden, no paraíso, no céu ou no além.

Como não tenho certeza de coisa alguma – nem se aquela batata assada com carne de charque que comi ontem caiu-me bem –, escrevo para contar as novidades do planeta Terra.

Se você não sabe dos acontecidos tecnologistas (como diria o Odorico Paraguaçu, de “O Bem Amado”), saiba que vivemos uma época de comunicação total – isto é, não há nada que escape da internet. O cara está na cidade de Ponta Grossa (PR) solta um pum e um chinês lá em Xangai vê em tempo real em sua webcam.

Por enquanto o chinês pode ficar despreocupado, porque o negócio ainda está na base do som e da imagem – acho que ainda demora um bocadinho até que alguém invente dispositivo para transmitir o odor até as narinas asiáticas, internéticas ou bill-gateanas. E dá-lhe, Odorico!

E o Brasil? O povo elegeu o torneiro mecânico para Presidente da República. Não é brincadeira. Lembra daquele debate em que o Rogê Ferreira perguntou se o Lula era socialista, comunista ou trabalhista e ele respondeu que era torneiro mecânico? Fique sabendo que o cara já está terminando o segundo mandato.

A “democracia” está implantada no país e dizem até que (milagres existem) o governo pagou a dívida externa. Será verdade? Os partidos subversivistas (esse jeito de falar vicia) de oposição dizem que tudo não passa de um engodo.

Vamos rezar aos santos de todas as religiões para que o pagamento seja verdadeiro. O imposto sobre os produtos industrializados foi reduzido pelo governo – por um período – e o que se viu foi o consumo desenfreado de carros, pense nas marginas na hora do rush – pense na cor de seus pulmões e das narinas. A coisa tá mesmo preta.

Pois as montadoras trabalharam a todo vapor e o atual presidente do sindicato dos metalúrgicos não teve que soltar a língua presa para decretar uma greve por causa do corte dos salários ou demissões. Ele não tem a língua presa? O Lula tem; e o Vicentinho, também. Será que ele tem?

E as geladeiras e os fogões! Nunca mais vai azedar feijão nesta terra. O cara ainda não tem casa, o esgoto corre a céu aberto, o bairro onde mora não tem um único posto de saúde decente, o transporte é um rio Tietê – mas todo mundo tem uma geladeira e um carnê para pagar. Que maravilha!

Por aqui, os trabalhadores continuam trabalhadores, o futebol continua futebol (os jogadores é que mudaram muito), a educação é um caso à parte, os partidos políticos continuam com os mesmos expedientes, caixa dois, corrupção, nepotismo, corporativismo e tudo que existe de sacanagem.

Tem até um cidadão que foi nomeado prefeito e governador biônico (na época da ditadura) e está sendo procurado agora pela Interpol; é por causa de seus feitos patriotivistas de envio de dinheiro público aos paraísos fiscais no exterior.

No mais tudo caminha bem. Perdemos as Copas de 2006 (Alemanha) e 2010 (África do Sul), mas a Copa de 2014 será em território tupiniquim e nós temos tudo (ou quase tudo) para levantar o Caneco.

Houve uma crise econômica internacional, mas a gente continua com aquele jogo de cintura, aquela ginga em todos os esportes. Agora estamos nos dedicando ao surfe e, devido à habilidade com a prancha, tiramos de letra a crise econômica. Tudo não passou de uma marolinha – como bem disse o nosso torneiro mecânico.

Outro dia escrevo para falar do quanto evoluímos em matéria de educação.

Abraços para você e para seu mano Betinho,

Jornalirista

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