Cerveja, camarão e ovos de Tracajá

 

O único momento no qual Seu Carlos experimentou o poder em toda a sua vida foi quando trabalhou como porteiro escolar. Com o cadeado na mão, controlava a entrada dos alunos. E quando fechava o portão, caso chegasse alguém atrasado, era ele quem dizia: sim ou não!

Mesmo com essa autoridade, os alunos não o respeitavam.

Mas agora estava sendo chamado para salvar duas vidas, porque somente ele tinha esse poder.

Apesar de se tratar do seu filho delinquente e de uma agente federal, ele ia contente pra missão. É que ligaram de Brasília, lá da Esplanada dos Ministérios, para pedir socorro:

— Seu Carlos, é pelo bem deles dois e do bom andamento do serviço público. Só o senhor pode resolver, o rapaz quer a sua presença.

Meia hora depois, um helicóptero da Polícia Federal pousou no campinho do bairro do Seu Carlos, levantando poeira e a curiosidade dos moradores.

Já de cima, ele olhou admirado a paisagem. Desde criança queria voar e ver tudo miudinho lá do alto. Pensou que iria morrer sem realizar esse sonho.

O seu moleque sempre dizia que um dia iria ajudar o pai a conseguir. E esse dia estava sendo hoje, mesmo sem a intenção do filho.

Braguinha tinha 28 anos e estava preso há cinco, por assalto à mão armada. Foi detido na cadeia estadual.

Ultimamente, estava saindo de lá junto com outros presos para prestar serviços de limpeza na Penitenciária Federal, que fica ao lado.

Foi numa dessas saídas que ele aproveitou a brecha da agente federal na guarita aérea e tomou-lhe o revólver, fazendo-a refém.

O diretor da penitenciária não conseguia acreditar: um rapaz franzino, vindo da cadeia estadual, conseguir fazer uma federal refém. Ainda mais na guarita aérea.

— E eu sempre pedi para que o próprio agente de plantão limpasse aquela merda. Guarita é lugar de atenção, ninguém deve entrar a não ser o próprio agente. Que merda! – praguejava, alterado, em sua sala.

Lá no helicóptero, o piloto pediu que Seu Carlos se preparasse, porque em 10 minutos estariam na penitenciária. Ele teve de deixar de lado seu deslumbramento para retomar a pose de homem sério.

Logo começou a pensar na prisão do filho. Nunca foi visitá-lo. Aliás, desde quando percebeu que Braguinha estava no caminho errado, começou a tratá-lo com desdém.

Chegou a conversar com o filho e ameaçar mandá-lo embora de casa. Até que um dia Braguinha encarou o pai. Este não aguentou tamanho insulto e quebrou um pedaço de madeira nas costas do infeliz. No meio dos dois não havia uma mulher para mediar a situação. A esposa e mãe morreu há muitos anos.

Então, o filho, que estava em vias tortas, entortou de vez. Saiu de casa jurando nunca mais voltar. E Seu Carlos dizia:

— Não volte nunca mais. Bicho insolente! Minha casa não é lugar de desonra. Onde já se viu, um filho enfrentando o próprio pai?

Se tinha uma coisa que ele prezava era a honra, não importava o fato. Essa virtude era o bem mais precioso que alguém poderia ter.

Para Seu Carlos, tudo o que era correto estava dentro da honra. Então passou a vida do trabalho pra casa, da casa pro trabalho. Não jogava bola com os amigos, não frequentava boteco, não olhava com malícia para outras mulheres e não pegava nada que não era seu.

Era um homem digno. Só seu filho que não.

Chegaram ao destino. Havia uma muvuca de servidores embaixo de uma guarita. No entorno, diversas viaturas na contenção. Lá em cima, Braguinha, agarrado ao pescoço da agente, demonstrava disposição para o pior. Só que quando ele viu o pai descendo do helicóptero, seu coração disparou. A refém sentiu afrouxar um pouco o braço do sequestrador.

Deram todas as instruções para Seu Carlos, mas ele foi para a torre decidido a seguir as suas próprias. Iria chamar o filho de drogado, covarde e sem honra. Um parasita que só serve para dar trabalho.

Assim que o acomodaram no guincho, foi sendo içado devagarzinho até o filho.

À medida que o guincho subia, o nervosismo de Seu Carlos ia no mesmo ritmo.

Ao ficar na altura da guarita, ele pigarreou para começar o discurso de pai de família, sem tempo para molecagem.

Mas algo ali freou o seu nervosismo. A fisionomia do filho o deixou desarmado. Há cinco anos não via o desgraçado. Mas não era uma mudança física, era uma expressão que paralisava aquele homem.

A agente federal pediu, com muita calma, para que ele não brigasse com o rapaz, pois Braguinha queria apenas ver o pai, por isso toda aquela cena.

O filho não abria a boca, seu rosto ia tomando uma expressão de choro e medo. Seu Carlos começou a tremer. Nunca sentiu aquela sensação. Procurou lutar contra ela e manter a pose. Só que a fraqueza o dominou. E entre todas as instruções, resolveu seguir a do seu coração. Assim que Braguinha largou a mulher, Seu Carlos pulou para a guarita com uma energia emocionante. Os dois se abraçaram como pai e filho que transpõem um enorme obstáculo da vida.

A ex-refém não desceu de imediato, ficou ali chorosa a contemplar aquele momento.

Braguinha entregou a arma para ela, que, junto com Seu Carlos, desceu primeiro. Depois veio o sequestrador com as mãos erguidas. Os policiais correram em polvorosa pra cima dele. A agente, ainda com os olhos lacrimosos, avisou aos companheiros de trabalho que não precisavam mais se preocupar.

— O rapaz só quer um passeio na praia.

É que, durante o sequestro, Braguinha contou para ela que queria o perdão do pai. Falou dos poucos momentos de lazer que os dois tiveram e que sua reabilitação dependia somente do amor do pai. Um homem que nunca demonstrou seus sentimentos perante o filho.

Seu Carlos e Braguinha ainda tiveram alguns minutos de conversa. Depois, cada um foi para o seu canto. O retorno do pai para casa foi também de helicóptero. Mas não mais importava o sonho de voar. Ele agora tinha outro sonho.

Enquanto voava, lembrava-se com muita saudade daqueles tempos de praia, com o filho novo e saudável correndo atrás dos pássaros. Camarão passado na gema do ovo de Tracajá e cerveja para lubrificar os caminhos por onde a comida iria passar. Mas agora os tempos são outros, as praias estão sujas, o mar anda revoltado e os Tracajás, que são de água doce, estão em extinção.

Seu filho também sente falta dos momentos bons que passaram juntos. Quando Braguinha sair da cadeia, Seu Carlos pensa em levá-lo à praia para tomar cerveja, comer camarão e quem sabe até lá os Tracajás já tenham saído da extinção.

Enquanto isso vai juntando o dinheiro para o futuro passeio.

A honra? Foi por causa dela que Seu Carlos nunca foi feliz de verdade. Então, no dia da praia, vai atirar toda a sua honra ao mar, e ser feliz o resto dos anos com o seu menino.

 

*Sacolinha é autor de Graduado em Marginalidade (romance), 85 Letras e um Disparo (contos), Estação Terminal (romance), Peripécias de Minha Infância (romance infantojuvenil) e Manteiga de Cacau (contos), de onde saiu o texto que você acabou de ler. Participa do projeto “Uma janela para o mundo – Leitura nas Prisões”, da Unesco e do Ministério da Justiça, nas penitenciárias de segurança máxima. Leia mais do autor aqui.

 

Um comentário para “Cerveja, camarão e ovos de Tracajá”

  1. Juvenal Azevedo

    Você escreve como quem fala
    Dona Hermila Ricciardi Campos foi minha professora durante a quarta série do primário no Gomes Cardim, em São Paulo. E uma vez ela me disse: "você escreve como quem fala".
    E mais não disse nem lhe foi perguntado.
    Então é isso, Sacolinha e também repito: "você escreve como quem fala".

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