Cheiro de pão

 

Seu nome legal é Pedro, mas é conhecido como Adnalla e gosta de ser chamado assim. Afinal, foi ele mesmo quem se deu esse nome. O motivo de só usar o verdadeiro em ocasiões extremamente necessárias estava quando respondia à pergunta:

— Qual é a sua graça, moço?

— Meu nome de escravo é Pedro, mas pode me chamar de Adnalla, que deveria ser a minha graça verdadeira.

Em sua infância já era marrento quando se tratava de piada racista. Tanto que certa vez levou suspensão na escola por ter socado o colega de classe que cantou:

Negro fedorento,
Bate a bunda no cimento,
Pra ganhar mil e quinhentos.

Mas sua consciência crítica veio mesmo depois que começou a fazer teatro alternativo. Isso lhe exigiu muita pesquisa, busca de conhecimentos e milhares de páginas em altas madrugadas. Foi inevitável não cair no tema dos seus antepassados.

O resultado acabou sendo a saída do coletivo de que fazia parte havia mais de cinco anos. Porque o grupo tinha o pensamento humano como trabalho central em suas peças.

Adnalla partiu de São Paulo para o Rio de Janeiro, onde se envolveu com a ONG Nós do Morro e lá pôde desenvolver um grande trabalho em torno das questões raciais.

Passou toda a década de 90 imerso em discussões, pesquisas e publicações. Só no ano de 2001 é que voltou a morar em Sampa, porque, nas suas vindas para a capital paulista, conheceu uma branca de nome Marília. Namoraram por dois anos, só se vendo uma vez ao mês.

Então, resolveram casar.

Foi ele que mudou de Estado.

O sogro cedeu setenta e cinco metros quadrados do seu terreno para a filha construir e morar com o marido. Aproveitaram a oportunidade e hoje estão casados.

Adnalla continua no teatro e de tabela trouxe Marília para junto das artes, já que antes de casar ela trabalhava com projetos sociais.

A vida de casados estava ótima, até o momento em que começaram as cobranças, mesmo por brincadeira, por parte dos pais de Marília.

Queriam logo um neto, e a sogra era quem mais se mostrava afim. Quando todos estavam em casa no domingo e se reuniam para almoçar, ela logo investia em indiretas.

— Assim que você ficar grávida, minha filha, eu é que vou escolher o berço.

O sogro não ficava atrás:

— E eu vou fazer um balanço pra ele nessa árvore aí do quintal.

Adnalla e Marília olhavam um pro outro sem graça, procurando sempre mudar de assunto. É que filho era o que eles mais queriam, já estavam tentando havia uns dois anos. E começaram a ficar desconfiados.

Procuraram o médico. Nada havia de errado, podiam ir tentando que logo daria certo. E foi o que fizeram. Tentaram por mais um ano – e nada. Então recorreram à medicina popular. Primeiro foram atrás da Nega Lurdes, mineira de 70 anos que teve dez filhos, todos de parto caseiro. É famosa aqui em São Paulo por ter dado a felicidade a muitos casais com a sua milagrosa garrafada.

Tanto um como o outro bebeu do líquido. Mas nada sucedeu.

Continuaram recorrendo a tudo, e logo todas as pessoas que os cercavam ficaram sabendo da saga do casal que não conseguia ter filhos.

É aí que entra Marcos Torelli. Cineasta de 32 anos, com dez documentários e dois longas-metragens no currículo. É ainda pouco famoso.

Conheceu Adnalla em uma peça de teatro cujo texto era assinado por ele. A simpatia cresceu quando os dois souberam que moravam no mesmo bairro. Logo fizeram parceria em filmes e peças teatrais. A amizade cresceu, tanto que um ia sempre visitar o outro. E foi numa dessas visitas que Adnalla percebeu o olhar de cobiça que Torelli dirigia à sua esposa.

Resolveu levar no banho-maria, já que o dramaturgo sabia que o cineasta era um bom malandro, e macaco velho não põe a mão na cumbuca, principalmente dos outros. Logo ia perceber que estava fazendo coisa errada e pararia sem precisar de uma conversa responsa.

Mas não parou, e às vezes nem disfarçava, quando, trabalhando em algum texto novo na casa do amigo, dava umas espiadelas nas coxas de Marília, que passava de um lado a outro da casa.

Adnalla chamou a atenção de Marília várias vezes e, a partir daí, embalados com a crise da não gravidez, brigavam sempre. Ele até começou a desconfiar, e nessa desconfiança passaram-se três anos. Juntando todas as crises e dilemas, o casal se separou e voltou algumas vezes. Na última separação não teve volta.

Torelli e Adnalla já não tinham aquele trabalho intenso como no começo da parceria, e a desconfiança, com as intrigas, romperam com o trabalho dos dois.

A amizade continuava, até que, numa noite de estreia duma peça dirigida por Adnalla, Marília e Torelli chegaram de mãos dadas. Todo mundo viu, todo mundo comentou e a suspeita do dramaturgo teve confirmação.

Cortou relações com o cineasta e só conversava com sua ex- porque gostava muito dela. Dava conselhos o tempo todo, dizendo que Torelli não era homem de confiança, que o conhecia, e isso e aquilo. Mas Marília não queria acreditar e, uma vez, cega de amor e influenciada pelo namorado, ligou para Adnalla e falou que ele não era capaz de dar o que ela queria, que nunca dera a atenção que ela merecia e que só queria saber de teatro e coisas de negro.

O dramaturgo pensou que não havia nada pior do que ouvir isso de alguém com quem vivera por sete anos. Mas havia, sim. Marília ficou grávida. Não demorou para que as pessoas percebessem sua barriga e soltassem a língua:

— O cara ficou mó tempão tentando engravidar a mina e não conseguiu, chegou outro e rapidinho fez o serviço.

— Muié nenhuma merece casar com hómi estéril.

— O Ricardão mandou vê na Marília e embuchou a danada.

Adnalla se achava parecido com esses personagens das tragédias gregas, e achou mesmo que cometeria algum ato de insanidade.

Estava em conflito interno. Passou duas semanas sem produzir e ler nada, só pensava nos últimos acontecimentos. Como se não bastasse tudo isso, chegou aos seus ouvidos a notícia de que Torelli estava morando com Marília na casa que ele construiu.

Refletir foi o único remédio.

Adnalla superou, ergueu a cabeça e voltou à produção. Viveria tranquilamente se não fosse Marília no seu pé.

Depois que a criança nasceu, Torelli abandonou Marília e esta vivia ligando para Adnalla, pedindo desculpas, querendo voltar. Ele bem que pensou em reatar, já que a amava tanto, mas, orgulhoso que é, resolveu não sofrer a humilhação.

Ajudava Marília no que podia, conversava, dava conselhos e fazia favores, mesmo estando no Rio de Janeiro, onde vivia atualmente.

Torelli não parava de viajar, envolvido com filmes aqui e ali. Mas não deixava de pagar a pensão. Vez ou outra ia atrás de Marília à procura de sexo, e ela sempre cedia.

Na época em que Adnalla e Torelli eram parceiros, os dois produziram um roteiro de longa-metragem tratando o tema da exclusão social. Adnalla foi o responsável pela pesquisa e compôs praticamente tudo. O cineasta só deu uma enxugada no texto. Aconteceu que nenhum dos dois registrou esse roteiro.

Em 2008 lançaram um filme nos Estados Unidos que foi sucesso de público e crítica, e logo começou a ser exibido em diversos países. Os direitos autorais do filme estavam em nome de Marcos Torelli. Adnalla ouvira falar muito desse longa e resolveu assistir. Não deu outra, era o roteiro feito por ele, em parceria com Torelli.

Superou a crise existencial, que foi mais difícil, mas esse fato ia de encontro ao ego e a ganância humana. “Trabalho há mais de vinte anos com arte e até hoje não consegui fama nem dinheiro, aí vem um filho da puta e ganha tudo isso me passando a perna duas vezes.”

Não ia reivindicar seus direitos pelas vias legais, não teria como provar, então resolveu fazer justiça com as próprias mãos.

Chegou em São Paulo e foi direto para o bairro onde Torelli morava. Informaram-no que não estava em casa e que chegaria mais tarde. Ficou de tocaia num canto da rua, e lá pelas três da manhã, sentindo muito frio e fome, resolveu ir até a casa da sua ex-.

Quando lá chegou viu o carro de Torelli no portão da casa. Pulou o muro e vagarosamente chegou até a janela. Os dois transavam.

Filho, traição, ciúmes, jogo sujo e as crises. Tudo juntou em sua cabeça e foi ganhando tamanho até explodir. Diante disso perdeu o juízo. Arrombou a janela e já entrou apontando a arma e querendo satisfações. O cineasta foi pedindo calma enquanto colocava a calça. Marília só gritava. Num vacilo do dramaturgo, Torelli conseguiu escapar e correu rua afora sem nem lembrar do carro. Adnalla foi atrás e conseguiu alcançá-lo numa esquina do bairro.

Torelli pediu calma.

Caiu com três tiros no peito em frente a uma padaria que exalava o cheiro da primeira remessa do pão da madrugada. O dramaturgo sentou ao lado do corpo e começou a entoar baixinho o Canto das três raças.

Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
Num canto do Brasil,
Um lamento triste sempre ecoou…

E ficou ali, a sentir aquele cheiro de padaria, a última coisa boa que resolveu sentir em vida antes de ir ao encontro dos seus ancestrais.

*Sacolinha é escritor, autor dos livros Graduado em Marginalidade, 85 Letras e um Disparo, Estação Terminal e Peripécias de Minha Infância. Leia mais de Sacolinha em www.sacolagraduado.blogspot.com.

 

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