Chorar

 

Nunca fui muito de chorar. Poucos são os amigos que já me viram derramar uma pequena lágrima que fosse. E não são poucos os grandes amigos que tenho. Não me vanglorio disso, só acho que desde pequena aprendi a engolir o choro. Gostaria mesmo era de demonstrar abertamente minha imensa sensibilidade, muitas vezes camuflada por uma força e invencibilidade que só tinha na minha infância – sim, na trilha sonora do He-Man.

 

Eu admiro quem chora. Sou contra a frase: “Fulano não merece suas lágrimas”. Afinal, ninguém chora pelo outro. Choramos por nós mesmos, pela nossa carência sufocada. Choramos pelo acúmulo de sentimentos não expressados. Pela verborragia reduzida à ausência de palavras. Pela nossa própria incompreensão. Pelo arrependimento. Pela nossa desesperança.

 

Sim, é fato que existem outros tipos de choro, não apenas o da melancolia. Tem o choro motivado pela alegria, pela identificação, pelo medo, pela saudade… Todos diferentes uns dos outros e que se unem por uma única característica: as lágrimas. Essas que eu costumo dizer que, em mim, secaram (de vez em quando mina um lençol freático no meio de um filme, livro e frequentemente na TPM, mas na maior parte das vezes a pele arrepia, o coração dispara, os lábios tremem, mas a lágrima não vem). Acho que todos esses choros deveriam ser classificados com nomes diferentes. Assim como os esquimós dão nome para as diversas tonalidades de branco que só eles enxergam, deveríamos nomear os diversos tipos de “choro” que o mundo todo conhece.

 

Conhecemos o choro, mas ouso dizer que não o aceitamos. Supervalorizamos a alegria. Jogamos o choro para debaixo do tapete para apresentarmos nossa felicidade eterna. Uma felicidade obrigatória.

 

Como ser alguma coisa sem saber o que não é sê-lo? Para sermos felizes, temos de saber reconhecer o oposto. Curtir a fossa. Saber nossos limites e não categorizar diferentes sentimentos em uma palavra, só porque são expressados de forma parecida. Não é ignorando o choro que seremos mais felizes. Seremos felizes a partir do momento que chorar não for coisa de “gente sensível”, não for sinônimo de fragilidade, não causar vergonha, espanto, nem piadas machistas. O choro limpa a alma. Descarrega a culpa. Potencializa o autoconhecimento. Como sugerem os cientistas, não deve ser por acaso que só os seres humanos choram.

 

*Thais Polimeni é publicitária e escritora. Contato: [email protected]

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