Cliente sempre tem razão

 

Vladimir: garçom, honesto e respeitador.

Aos fins de semana, pessoas faziam fila

Para ser atendidas. Por ele.

 

Vladimir, sempre atencioso.

Conseguia lugar para um casal.

Uma turma de amigos e famílias.

Ajeitava todos e não perdia cliente algum.

 

Certa noite, a casa lotada, uma fila enorme, casais e famílias.

Vladimir, carregando sua bandeja, foi abordado

No meio do salão por um senhor, que lhe disse:

― Ei, garçom, arrume um lugar, só pra eu jantar, e vou embora.

 

Vladimir examinou todo o salão.

Nem uma mesinha disponível.

Virou-se para o senhor.

Aparentava ser distinto, bem-vestido, então disse:

― Fique aqui, meu senhor, já volto.

 

Voltou com uma mesa.

Trouxe cadeira e acomodou o senhor.

Já que era só para o homem fazer uma refeição.

Voltando ao homem, foi atendê-lo e disse:

― Fique à vontade, aqui está o cardápio.

― Vou querer bife acebolado.

Arroz, feijão, batata frita e salada.

 

Vladimir foi até a cozinha. Gritou!

“Saindo uma janta: bife acebolado, fritas e salada.”

E foi cuidar dos seus afazeres pelo salão.

 

Atendia um ali, outro acolá, em meio ao movimento.

Passava na mesinha do senhor e dizia:

― Tudo nos conformes, senhor?

O homem respondia que sim.

 

Depois de muito tempo andando pelo salão,

Notou a presença do homem, e o gerente chamando.

Vladimir vai ao encontro dos dois, pensando:

“Bom, acho que vou ganhar elogios ou até mesmo uma caixinha”.

 

Chegando à mesa, é chamada a sua atenção, advertência.

O homem estava furioso, já tinha até pagado a conta.

E disse que nunca mais entraria ali.

Pois não teve um bom atendimento.

Esqueceram da sua salada.

 

Vladimir se desculpou e chateado foi

Cuidar dos seus afazeres pelo salão.

Atendia um cliente ali, outro aqui.

 

 

*Germano Gonçalves é autor, entre outros livros, de “A princesa e a lua”. Leia mais no blog dele clicando aqui.

 

9 comentários para “Cliente sempre tem razão”

  1. Cláudio Gomes

    Trabalho com assistência técnica e acho muito interessante a questão do "cliente sempre tem razão". Ainda mais a visão "brasileira" em relação à questão. É prática a unanimidade a favor do garçom, no caso relatado! É problema (grave) do nosso caráter de povo, pois, em se tratando de "contrato" e o correspondente respeito na relação contratante X contratado, me parece, ocorreram os seguintes fatos:

    – O cliente abordou ao Vladimir buscando um contrato;
    – Vladimir aceitou as condições de contrato e iniciou o atendimento;
    – Vladimir solicitou erradamente o pedido na cozinha;
    – O cliente recebeu parcialmente o que pediu. Há que se supor que o mesmo aguardou pela salada que não veio;

    Conclusão: – O Vladimir NÃO CUMPRIU o contrato!

    Obs.: – O resto do contexto descrito é perfumaria distrativa, à exceção do comportamento emocional de ambos (na ordem de Vladimir e cliente). Mas, no caso "o Cliente tinha razão"! Ou não?

    Como povo prestamos atenção à forma e desprezamos o conteúdo… Isto explica muita coisa!!!

  2. Lisete Bertotto

    Muito bom o poema. Cenas de um cotidiano urbano cada vez menos solidário. Mas que mesmo assim mantém a poesia.

  3. Germano Gonçalves

    Germano Gonçalves

    AGRADECIMENTOS
    A quem comentou ou irá comentar, agradece valeu!

  4. Carla Pachêco

    Infelizmente as pessoas não podem dar o que não tem. E muitas não tem "consciência".

  5. Paulo Paterniani

    Gente que não quer comer, quer foder …

  6. Andreia Dacal

    E assim caminha a humanidadezinha…

  7. Luciano Luz

    "Não podemos agradar à todos."

  8. Donizete Rivera

    O retrato da humanidade!

  9. geysa marcia oliveira

    Vai fui garçonete por um bom tempo,existe vários tipos de clientes ,você se esforça para ser o melhor ,mais sempre tem os PREPOTENTES.

Comentário