Como nasce um país

 

1.

Quando passo apertado

entre o que acho que é

um mendigo deitado

(doente? morrendo?)

e qualquer outra gente

andando, sorrindo, falando

prendo a respiração

fixo olhar para um nada

onde estaria o não-aquilo.

 

Nesse instante

nesse espaço

nasce meu país.

 

 

2.

Massa monumental de lava

espirra linda pelos furúnculos da Terra

empedra

e depois o vento aplaina

o mar esculpe

a dinamite morde

o engenheiro manda

os operários cimentarem

e uma caixa

me eleva

a essa casa

(minha).

Lá dentro

a mulher

(que digo minha)

deita, dorme

diz que tem

cansaço:

— Boa-noite, querido.

 

Explodo em silêncio

viro pedra

mas sem espetáculo.

 

 

3.

Concretam-se famílias

mulheres e crianças

velhos de todas as idades

abaixo da linha da pobreza.

 

Eis as pontes

estruturadas por janelas

retiradas em mutirão nacional

de casas e prédios de apartamentos.

 

Desnecessária vista para a rua

já inventamos a televisão.

 

 

4.

Descabido de mim

como cresce meu país!

sem licitação

porque urge

e não há tempo para Leis.

 

Digo não caibo

mas cá estou.

 

 

5.

Excitado

o planeta baila

por baixo das roupas.

 

O planeta flerta o sol

e espera

não se queimar.

 

Apesar disso

parece tão calmo

o fim de tarde.

 

 

6.

Não sei montar cabana.

Não consigo pescar,

reconhecer uma fruta comestível.

Esqueci de como subo em árvores.

Não me oriento sem placas.

 

Tenho dinheiro.

 

 

7.

Fim da Pangeia

não dos caminhos

(apesar dos passaportes e vistos).

 

Nem a Lua escapou da ponte aérea.

 

Somos sete bilhões e crescendo

o isolamento parece impossível.

 

Mas há noites em que preciso muito de amigos

e ninguém está.

 

 

*André Argolo é escritor.

 

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