Como surge um desaparecimento

 

Encontrei-o na praia.

Ele se aproximou e achei que pedisse água

queria dinheiro

dei a ele meu não e minha garrafa

bebeu devagar, desacostumado

e sentou-se, como enfastiado

e olhando o horizonte

como recém-inaugurado

contou-me que era um náufrago.

 

De que navio?

Não respondeu.

 

Não havia visto antes

não sei como

ele tinha um violão

seco.

 

Começou a cantar uma música de Gil

dedilhando

peles murchas

flutuando

algas moles

borbulhando

notas firmes

no entanto

afundou o refrão:

— Perco umas partes e as tapo como posso.

 

Não sabia há quanto tempo estava ali.

E ninguém antes o tinha visto

nem na barraca de suco

nem na de pastel

o sorveteiro

o remador

o surfista

alguns se comoveram ao notar sua ausência.

 

Não agradeceu pela água

caminhou sem pegadas

nadou com destreza

logo envolveu-se no roxo do dia.

 

Às vezes alguém se lembra

e me pergunta.

Eu nunca o esqueço.

 

 

*André Argolo é escritor, autor do livro de poemas “Vento noroeste” (Editora Patuá, no prelo). O lançamento está marcado para o dia 30 de outubro, a partir das 19h, no Bar Canto Madalena: rua Medeiros de Albuquerque, 471, Vila Madalena, São Paulo).

 

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