Confiança

– Helena, tome mais uma xícara de chá, você acabou de chegar. Eu insisto, só mais uma.

– Dalva, eu preciso ir, hoje minha visita vai ser super-rápida, mas… tudo bem, aceitarei mais esta aqui, sem açúcar, por favor.

Uma vez por semana era assim, geralmente aos domingos. Dalva e Helena se encontravam para colocar os assuntos em dia. Amigas há mais de quarenta anos, nunca tiveram segredos e, juntas, dividiram as alegrias e consolaram as tristezas, uma da outra. Apesar da distância social, nunca se separaram.

Dalva fazia questão de que esses encontros acontecessem em sua casa. Apesar de simples e modesta, gostava de servir a amiga. Helena não se incomodava. Sabia que Dalva preferia dessa forma e, mesmo tendo de se deslocar de muito longe, sentia prazer em visitar a amiga no subúrbio da cidade onde morava.

Ao contrário de Dalva, que ficou viúva logo depois que se casou, Helena tinha um casamento estável com um empresário abastado. Teve tudo de melhor que a vida pôde lhe oferecer, conheceu o mundo em viagens luxuosas, aprendeu idiomas, estudou arte, mas sempre fez questão de manter os encontros com Dalva. Sempre na casa da amiga, simples, modesta, mas sempre muito acolhedora.

– Quer dizer que hoje o seu marido está no clube jogando golfe, Helena?

– Pois é, aos domingos o Jair gosta de frequentar o clube. É o seu momento de distração, eu não me importo, já que domingo é o nosso dia, Dalva.

– E o Juninho, como está? Ainda não voltou da Europa?

– Que nada! Acho que ainda vai ficar um bom tempo por lá. Está terminando a faculdade de administração e já conseguiu um estágio em um grande banco londrino, está bem encaminhado. A gente acaba sentindo falta, afinal de contas, é nosso único filho, mas criamos os filhos para o mundo, não é isso o que dizem por aí?

– É, minha amiga, eu fico sempre muito feliz de saber que você está tão bem. Vejo nos seus olhos a alegria. Você foi uma vitoriosa. Um exemplo. Conseguiu construir uma família maravilhosa, tem um marido bem-sucedido, que, além de amor e um filho exemplar, lhe deu tudo com que uma mulher sonha.

– É… pois é, mas… me fale, e você, Dalva, como anda?

– Helena, você sabe que não tive a sua sorte. Depois da morte do Henrique, eu tenho levado a minha vida como Deus me permite, sem excessos. Vivo aqui, sozinha, fico esperando a velhice chegar e, enquanto ela vem devagar, me consolo com os nossos encontros e com as suas novidades. Você não imagina como as suas visitas me fazem bem, se não fosse por você eu acho que…

– Dalva, minha amiga, eu vou estar sempre aqui, você sabe disso. Não existe ninguém no mundo que me conheça melhor que você. Nós dividimos tudo nas nossas vidas, e vamos continuar assim, juntas, para sempre.

– Oxalá!

– Mas agora preciso ir, de verdade. Não quer combinar na minha casa semana que vem? Olha, eu posso te pegar…

– Helena, você sabe que prefiro que continuemos nos encontrando aqui. É mais fácil para mim, ainda mais agora, que ando com esse problema na coluna, tenho um pouco de dificuldade para andar e…

Helena entrou em seu automóvel e acenou para Dalva antes de ir embora. No caminho de volta para casa, não conseguiu segurar o choro. Chegou tremendo ao luxuoso condomínio onde morava. Antes de subir para o apartamento, ainda na garagem, respirou fundo e tentou se recompor. Parecia adivinhar o que lhe esperava.

Ao entrar, a certeza. Largado no sofá, o marido estava mais uma vez completamente embriagado. Tentava se levantar, falar com a esposa, mas sua condição era digna de pena. Arrastando-se pelo chão, chegou até os pés de Helena e pediu perdão, disse que aquela seria a última vez que o veria naquele estado. Desde que se viciou no jogo e na bebida, sua vida foi só de derrotas, e a maior delas ver a sua empresa falir. Em menos de três meses, Jair perdeu tudo o que a família construiu durante décadas.

– Helena! – balbuciou, ainda no chão da sala. – Eu não vou conseguir ver o Juninho hoje, por favor, diga que eu…

– Vou dizer a verdade, Jair! Pode ficar tranquilo! Vou dizer que sinto muito por ele ter um pai fracassado. Um pai que nunca lhe deu a menor atenção. Que nunca lhe mostrou carinho. Sempre pensou só no trabalho e, de uns tempos para cá, depois de velho, decidiu se viciar no jogo e na bebida! Não é à toa que o menino acabou optando pelo caminho da droga. Olha o resultado aí: vinte anos de cadeia e nós sem dinheiro para pagar um bom advogado e abrandar a pena. Espero que você esteja entendendo e ouvindo tudo isso que estou lhe dizendo, Jair.

Helena deixou o marido na sala e encarou sua fisionomia no espelho do banheiro. Procurou a alegria e o amor que a amiga Dalva via sempre em seus olhos, mas dentro deles só encontrava angústia, solidão, tristeza e dor. Enquanto aquela que dizia ser a sua melhor amiga, a pessoa que mais a conhecia, não percebesse todo o seu sofrimento, calaria e se recusaria a lhe dizer a verdade, por mais doloroso e pesado que fosse carregar essa realidade sozinha.

 

Imagem: Arte Jornalirismo

 

2 comentários para “Confiança”

  1. Pedro

    Boa Gustavinho!

  2. Keli Vasconcelos

    Keli Vasconcelos

    Gustavo, que texto incrível! Amigos sabem ver até o que o coração, distraído, não percebe. Parabéns!

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