Conte comigo ou vamos juntos?

O ano eu não sei ao certo, mas daquela noite lembro-me muito bem. Lembro-me como se fosse ontem, como tantos diriam.

Santos (SP), mês de dezembro, aquela época tradicional em que as famílias se reúnem para as festas de fim de ano. E, por esse motivo, foi marcado um daqueles famosos encontros de formados do colégio.

Cenário clássico: barzinho bacana, bebidas rolando à vontade e a turma bem animada. Por um instante, parei e olhei ao meu redor e me vi relembrando estereótipos da época de colégio. Alguns com a mesma atitude, outros nem tanto. Foi divertido ver as pessoas deixando de lado tudo isso e realmente conseguindo se confraternizar. Sem dúvida, com o tempo, vem a maturidade.

Conversa vai, conversa vem. Uma turma resolve mudar de bar, outra resolve ir para uma balada mais intensa e outros se despedem. Nesse momento, esbarro com uma pessoa e meu mundo para. Amigo de longa data, não o via fazia algum tempo, mas nunca perdeu seu lugar dentro de mim.

A alegria transborda no peito, e a paz que ele traz consigo ilumina minha alma. Claro que conversamos a noite toda. Ele me atualizou da sua vida, contei tudo sobre a minha. Fez questão de me mostrar seu novo escritório. Ele estava feliz! E eu mais feliz ainda em vê-lo tão realizado.

Sei que estava cansada nesse dia e já tinha passado um bom tempo desde que chegara ao bar. A próxima lembrança que tenho é abrindo os olhos e percebendo que estava em seu sofá. Ele me observando. Para ser sincera, fiquei incomodada, mas a ternura sempre esteve presente em nossos olhares. Sorri.

Com toda a sua gentileza, me leva ao carro. Nos despedimos com um abraço, daqueles bem apertados, como se fosse o último. Sim, sou intensa assim e gosto de abraçar as pessoas.

Fui para casa e dormi.

E a vida continua e a história não acaba aqui. Diria que começa. Um dia, buscando algo em minha bolsa, deparo com um bilhete. Abro-o e começo a ler. Sinto um calor, bochechas rosadas, coração acelerado. Mais calor.

Sem dúvida, um dos bilhetes mais lindos que recebi na minha vida. Fiquei parada por alguns minutos. Confusa. Calor. Estômago embrulhado. Não conseguia pensar ou tentar expressar algo. Eu, que sempre fui desprendida, autossuficiente, bem dona do nariz e uma pessoa do mundo, me vi ali, parada, sem saber o que fazer. Decidi aguardar.

E a vida continuou. Nunca falamos do bilhete. Nunca falamos desse sentimento lindo descrito nele e do que senti. E por mais louco que possa parecer, a gente continuou se fazendo presente um na vida do outro, cada um do seu jeito, mas sempre lá.

Até hoje me pergunto se aquele bilhete era um “Conte comigo” ou um “Vamos juntos?”.

Enquanto isso, a vida continua.

 

 

Imagem: Arte Jornalirismo

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