Conversa de três

 

Oi, filho, tudo bem?

Pai?

 

Arlette entrou na conversa.

 

Mãe?

Tudo bem, filho?

Mãe? Pai?

Oi, filhão, saudade.

Tua mãe tá morrendo de saudade também.

Eu também estou com saudade, imensa, mas pera aí: vocês não estão mortos?

E você não está vivo?

Acho que estou, sei lá. Mas se eu estou vivo e vocês estão mortos, tem algo errado aqui.

Ah, poupe a sua mãe, filho, pelo menos no além-túmulo. Me poupe! me poupe! rs

Mãe, você continua igual, mesmo aí, rs

Filhão, o que tá acontecendo contigo? Estamos preocupados.

Já nasci morto, pai, natimorto, é assim que me sinto.

Ah, me poupe! me poupe!

Sério, mãe.

Quanta bobagem. Esqueceu de que você foi vitrine de maternidade? O bebê mais bonitão? Ficava lá na frente, na primeira fileira, ser humano mais bem-acabado, também quem foi que fez? rs

Fizemos, né?

Ah, me poupem dos detalhes, vai.

Filhão, você já nasceu fazendo um xixizão, molhou todo o médico, chegou firme no mundo. Macho, o meu primeiro. O primogênito.

O primeiro será o último…

Me poupe! me poupe!

Filhão, filhão. Onde eu e sua mãe erramos contigo? Por que se sente tão mal assim?

Filho que não fez nem força pra nascer fica tudo mole, mesmo.

Você e tuas teses furadas, né, mãe? Tá certo, mas não fui eu que escolhi nascer de cesariana. Mãe que não fez força pra filho nascer… é tudo mole, também. rs

Tá argumentando bem e pelo menos não perdeu o bom humor, filho.

Essa nossa conversa aqui é surreal, não é coisa de gente normal. Facebook não é mesa branca, não.

Me poupe! me poupe! E aquilo que ficou não conta? A permanência do que ficou ausente?

Tua mãe deu pra filosofias, filho, rs

Me poupe! me poupe!

A permanência do ausente, mãe? O que é isso?

Se não fosse tua mãe, hem? O que seria de você e de seu pai? Veja bem: essa foto que está aí atrás do teu monitor, que lugar ruim, hem? Então, essa foto em que você está em meu colo, todo bonitão, essa foto aí, de que tanto gostamos. Algo ficou. Eu já transpassei, você já é um homem pra lá de adulto, apesar de tão infantil…

Por isso que sempre te amei tanto, mãe: você elogia criticando a gente. Faz bem e faz mal na mesma proporção. rs

Me poupe! me poupe! Então essa nossa foto aí, algo ficou. Você ficou, e eu fiquei em você. Mas a presença da ausência é também saber que a presença, agora, se constitui de outra natureza. Não se ouve, não se toca, não se beija, mas ela está, aí, de outro jeito. Sente-se de outra forma. Essa mesma conversa aqui, entende? Não mais estamos, mas ainda estamos.

Filhão, ouça outra vez o Negro Gato, coma uma lata de apresuntado Swift, aquela, lembra, que a gente abria com uma chavinha pela lateral da lata? Eu estou lá, naquela canção, naquele bolo de carne caloricamente feliz chiando na frigideira.

Ah, me poupe! me poupe! Sempre roubando as minhas ideias…

Gatinês, estou te apoiando, me poupe você.

Vocês não vão brigar mesmo depois de mortos, vão? Me poupem! me poupem! rs

Bom, filhão, é como tua mãe disse: a presença da ausência. Pense nisso.

Meu filho, estamos aí, mesmo não estando. Tá sentindo a eletricidade percorrer teus dedos agora, tá sentindo? Tuas mãos, teus braços? Tá sentindo?

Sinto, sim, mãe.

Então me poupe! me poupe! rs

 

Arlette saiu da conversa.

 

Se cuida, filhão, você é o grande Gato Gui. Um Negro Gato. E você já sabe, né? Os primeiros 80 anos…

Sei, sei, pai, rs, os primeiros 80 anos são mais difíceis. Agora, sim, tô tranquilo, depois dos 80 melhora, né? rs

Isso! Se cuida, filhão.

 

Juvenal saiu da conversa.

 

Guilherme saiu da conversa.


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