Da melancolia libertadora

Eu era a folha mais seca

Leve

sendo levada pela corrente de ar

mórbida

onde matei uma sociedade inteira

acreditando que era a hipocrisia que nos matava

no sofá

assistindo cus falantes

e o meu próprio sangue escorrendo

para o esgoto da minha velhice

da santidade manipulada pela mentira que me tornei

e ela foi caindo

mostrando-me além das paredes feitas com areia e cimento comprados por corruptos

a primeira coisa que vi foi uma flor

num imenso campo vazio

e que me fez um sinal

saia desse casulo amargo

agora você está nu

despreparado

e vai chorar quando a verdade melancólica te libertar

ela disse que me ampararia

então lembrei do Pequeno Príncipe e sua flor

me senti um pouco idiota por essa lembrança

é bom ser idiota de vez em quando, me disse a flor

eu disse que a queria

ela disse que já estava enraizada

e que suas raízes eram tão profundas que chegavam do outro lado do planeta

onde indonésios deitavam e pensavam que era o capim mais santo que a própria devastação do homem

ela disse que, por isso, eu não poderia levá-la a parte alguma

apenas

ficar ao seu lado

e tirar todas as camadas de dores até me libertar totalmente

então eu seria uma flor

num enorme campo de luz, amor

e que não precisaria de cerveja

nem uma?

tudo bem, uma até pode

desde que cuide dos pássaros picucos que migram até o Himalaia.

 

P.S.: Poema antigo e libertador, escrito em 2013.

 

Fonte da imagem: http://www.papeldeparede.etc.br/fotos/

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