De amor e morte

 

— Sabe, coraçãozinho, às vezes me pego cismando.

— Com o quê?

— Com o dia em que um de nós morrer.

— Você vive pensando em cada coisa, não? Você deve ter algum mexicano na família, não é possível…

— Até gosto de chilli, mas, se tomo tequila, fico pirado rapidinho e passo muito mal. Tá, sei que sou dramático. Só que, às vezes, quando acordo de noite e fico observando você dormir…

— Ah, você não perde essa mania. Não sabe que odeio?

— Sei. Sei, sim, mas velo o teu sono, como… como o cachorro vela o osso.

— Outra vez com tuas analogias infelizes. Tá me chamando de magrela? Osso é a tua vovozinha, que Deus a tenha.

— É sério o que estou falando. Não é justo que duas pessoas que se amam conjuntamente morram isoladamente. Não se faz isso com quem ama.

— Ah, Romeu, tua Julieta está aqui, ó! E vai ficar do teu ladinho mais uns, sei lá, cinquenta anos. Vai até enjoar. Vou ser a tua velhinha decrépita e resmungona, ralhando com você o dia todo.

— Sim, minha Julieta banguela, e eu te amarei de fraldas geriátricas modelo tigrado. Mas me leve a sério. Se permitem marcar dia e hora para nascer, por que proíbem marcar dia e hora para morrer? Então, nós dois, de comum e mórbido acordo, escolheríamos uma hora, um dia para morrer, quem sabe a mesma hora e o mesmo dia em que a gente se conheceu. Aí, nos despediríamos de mãos dadas, juntos, como vivemos. Não haveria dor desnecessária. E veja que nem estou pedindo a eternidade, tão ansiada por tantos amantes. Sou humilde, aceito a morte.

— A essência do amor é acreditar em que ele seja eterno, que nunca morre, mesmo sabendo que ele tem um fim. E quando se ama, não se morre. E amar completamente é saber amar tanto a presença quanto a ausência.

— Ah, isso é bonito na poesia, na mente de filósofo chinês, mas sejamos realistas e práticos. Nunca pensei que um dia eu seria a parte prática do casal.

— Claro que não é: você não aceita o curso natural da vida. Não tem nada de praticidade nem de realismo no que diz, só fantasia. Além disso, quem encomendará o teu, o meu velório, o teu, o meu esquife, senão eu, senão você?

— Eu só não quero morrer nem antes, nem depois de você, é só isso, entende? Mesmo se o intervalo entre a sua morte e a minha for de um bilionésimo de segundo, nessa fração mínima de tempo, eu sei, vai caber toda a dor de um universo. Toda a tristeza que um homem não pode suportar.

— Ei, o dia já foi duro, que tal apagar a luz do abajur e voltar a dormir, hem?

 

Clique.

 

(Cinco minutos depois.)

 

— Coraçãozinho, não consigo dormir. Você está aí, viva?

(Silêncio.)

— Coraçãozinho, você ainda está viva?

(Silêncio.)

— Coraçãozinho, você não morreu antes de mim, morreu? Não fez isso comigo, fez?

— Huuuummmm… O que é de novo, hem?

— Ufa, melhor você assim, mal-humorada, mas viva. Não consigo parar de pensar naquilo que te falei, que não é justo morrermos separadamente, cada um num tempo diferente. Já estava até pensando num texto escrito a quatro mãos, criação coletiva, para o nosso epitáfio, quero a tua opinião: Aqui jazem…

— Meu Deus do céu! Quem vai acabar te matando sou eu. Três e cinquenta e sete da manhã. Cê tá de brincadeira?

— Tá, tá, tá bom, coraçãozinho, mas se for morrer, avisa…

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