Deise

Estendeu-me a mão umedecida. Parecia não esperar nenhum gesto em resposta e surpreendeu-se quando eu lhe estendia a minha.

Nestas noites, que não são frias e não tiram o sono como nos tempos de verão, a chuvinha, fina e lisa, umedece quem passa. É a mesma chuva que confunde as luzes. Revolve-as em sinais trêmulos que perdem a velocidade e param ao menor sinal de ordem ou ameaça. Não fossem os buracos que impedem a força e a ferocidade, lançaria sem rima sobre qualquer um que os provocasse.

Sobre mulheres e homens, uma camada de água desliza contínua. É aquela que molha o corpo, toma-lhe e estabelece fluxo entre o cair, o deslizar e a secura. Há um momento insípido que homens e mulheres experimentam, no cair e deslizar da água, a secura do cheiro azedo: levanta firme e faz esgotar qualquer empatia.

Ainda assim, é com esta ousadia, porta-voz de vozes vazias, que me estendia a mão umedecida e eu, sem demora, estendia a minha.

Esqueço do cheiro, é a palavra mais atrativa. Desfila e nos sacode destes lugares cômodos longe da chuva que caia. A mão fazia surgir todo o ser de um interlocutor que se confundia com as luzes coloridas. Disforme, não sei se é homem. A voz ainda não dizia. Tinha voz? O que diria? A ousadia não encontra saída sem testar-se neste tipo de encontro. Corta o ar em repouso e alcança-me, no cômodo conforto de um semimorto. Não digo por inteiro. Não só arrisco avançar sobre o texto, mas também me lanço resignado nesse acaso que não tem sentido. Vício ingênuo que me fez lembrar que habita o inferno toda boa vontade.

Por um único instante, os corpos assumem espaços infinitos. Depois do verbo, é tudo corpo.

Essa estranha proximidade, prazerosa e instigante, atira-nos a cada instante na possiblidade de um momento final. O término de toda chegada, de toda partida e de todo retorno. As palavras aguardam e desfilam alheias à nossa insistência de compreensão. Talvez as mais raras guardem um caminho livre, aquele que escapa da compreensão e se aventura em uma verdade oposta a todo o universal.

Não é tarde. Há quem ainda saia do trabalho. O cansaço, pode-se notar, é triunfante. Pesa sobre toda a gente e deixa ainda mais trêmulo qualquer movimento. Os homens, agora espalhados e azedos, percorrem as ruas em volta do centro. Buscam a compensação de toda a renúncia que a tradição lhe faz viver. É neste (res)sentido que os corpos femininos aturam os violentos, os mal-educados e os sedentos.

Arriscava-se, ignorante estendia a mão sem esperar que gentilmente eu lhe oferecesse a minha.

Encontro. Interrompe a palavra com outra que vacila entre a indignidade e a alegria: fala o ser ainda disforme que, já tão perto, insinua sua diferença entre as coisas e os sedentos. Não há dúvida de que a alegria, se figura ali, é com certa embriaguez que consegue suportar a indigência. É preciso amar-se sobre-humano para não esquecer-se de si. É preciso amar-se com os outros para manter-se livre da indignidade que toma a memória e se torna, entre o natural e a metafísica, A identidade.

É gesto simples, mais que isso, ambos estendem provocativos: a mão aproxima e o toque inevitável, é infinito.

Não me importa a aparência. Sou feio e amo as coisas feias. Irrita-me a beleza líquida. Tenho impulso de desfigurar todo o belo que deixa, em sua estética pretensiosamente universal, as casas prontas para receber os sedentos, os mal-educados e os trêmulos que se excederam ao relento.

O cheiro azedo, forte e rabugento espanta o cão ao lado. Vai embora sem rosnar sob o gesto silencioso que aperta a minha mão e a faz balançar forte no ar. Teus olhos são castanhos, ela dizia sem se deixar incomodar pela falta de intimidade. Não era surpresa, mas poucas vezes se fizeram destacar estes olhos comuns. A figura que ganhava novos contornos percebia a nuance das cores escondidas pelo vento, pelo resto do chuvisco e pela lente manchada. Enxergava e forçava a mão que contrastava com a minha e que já não balançava. Aguardava o aperto forte que eu não poderia ofertar.

Mantinha no ar as mãos estendidas e não seria suficiente oferecer-lhe meu retraimento, meu silêncio. Agradeço-lhe.

Reclama quando percebe que só posso oferecer o tímido cumprimento. Não é a sutileza que lhe ganha o espírito. Não se ofende com os olhos que vasculham, agora desnudos, o lugar. É permitido falar, o silêncio é impedido, já que o cliente não parece incomodar. É tão indigno! Ela, sim, era mulher, não foi silenciada pelo caixa ou a moça que serve apressada. Não insinua nenhuma pergunta que pudesse constranger esse ser trêmulo. É com o sorriso em que faltam dentes que lança no ar um tipo de sentença profética:

― 13 de agosto. Você sabe! Você vai voltar aqui, vai me encontrar e vai alcançar seus sonhos, aqueles que só você sabe. Só você pode saber. Mesmo que fale demais, só você pode saber. É tudo o que sempre quis, é tudo o que sempre vai querer. Aguarda com deus, teu sonho é todo teu. Você sabe. Eu não cheguei aqui agora. Vivo aqui, ali. Por onde posso e por onde ninguém quer viver. Ninguém quer nada de mim.

A mão já não força e aos poucos é a minha que insiste em segurá-la.

Ameaça partir. Já sinto sua falta. O cão acomodou-se longe e não nos dá nenhuma atenção. Há ainda um outro que olha espantado a proximidade. Na cidade as máquinas de desejos não dão espaços. Tudo é homogêneo. Resta ainda em mim simpatia. Ela, aquela que toma de volta minha mão e ameaça beijar-me a face, transborda algo que não sei definir. Ignora minha empatia e rejeita a momentânea solidariedade que nada mais é que coisa qualquer de sujeição.

É agora totalmente forma. Entre os sedentos e os trêmulos, é forma forte e linda. O cheiro azedo incomoda, e para os sedentos seu corpo é escárnio, tipo abominável. Criatura miserável. Meus olhos, tão instáveis, buscam seus olhares. Os sedentos não escondem seus sinais de desaprovação.

― Traz esse ser abominável para caminhar entre nós. No meio de nossa gente, é trapo, resto e indignação.

As mãos flutuam sustentadas pela vontade e pela forma.

É hora de ir embora. Não sem antes dizer-me que é gente. Agradece-me. Ninguém a trataria assim. Pergunto: por que a trataria diferente? Olha-me firme. Por um minuto sinto que a pergunta a atinge. Sinto-me transparente. Atravessa-me, alcança-me em outra dimensão. Sou do avesso. Comprimo os dedos enquanto desvio o olhar buscando a cumplicidade de algum desavisado. A resposta é manca. Vacila pela emoção aparente.

― Me trata como gente. É assim que eu sou. No meio de toda essa gente, chamam-me de Deise.

Tem nome. Os olhos pela primeira vez guardam sinal de esperança. Talvez não fosse essa a palavra que Deise escolhesse. Não faço mais que suposição. As mãos se soltam sem aflição. Um beijo tranquilo marca o encontro quase terminado. Será memória.

Vai-se embora. Eu fico contigo, agora cada linha mais um pouquinho. Sou tudo isso. Toda a possibilidade de sentir-me azedo e também perder os dentes.

Imagem: flickr.com

Um comentário para “Deise”

  1. Marilda Cerquetani

    Fernando excelente. Parabéns. Bjs

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