Depois das seis

 

― Poderá acontecer a uma pessoa convencional.

― Não fui clara. Estou sentada nessa poltrona marrom e espero ir. Os ponteiros daquele relógio são ágeis.

― Ainda não é hora.

 

Desfez-se da memória do diálogo quando a chuva cintilou as marquises dos prédios e um corcel espirrou água em suas pernas. A igreja amarela, com porta de madeira clara e alta no centro da praça. Paredes com grafites inacabados e gastos pelo tempo. O comércio de chapéus de diversas cores dependurados na porta por um varal azul, cobertos por pequenas luzes que piscavam três vezes seguidas antes de uma pausa maior. Entrou batendo a porta e, ainda molhado, sentou-se. Envelope e folha em branco em cima da mesa, ao lado de uma xícara de porcelana branca inerte. Com a caneta, escreveu uma linha com a mão firme, que marcou a superfície do sulfite. Outras palavras e depois rabiscos odiosos, riscos até a tinta se desprender.

 

Suas unhas amareladas tateavam a madeira contando os segundos. Largou a caneta e tirou dos olhos os fios de cabelo branco. Levantou-se da cadeira e acendeu a luz da sala para verificar se havia eletricidade. O apartamento ao lado estava em reforma. Preparavam para alugar. Rastros de areia e cimento sujaram o capacho. Ouviu o martelo bater sem pausa três vezes a cada segundo, um cheiro forte de cigarro atravessou o batente da porta. Risos dos obreiros por uma piada que ele não conseguiu ouvir. Apoiou os cotovelos na mesa e fechou os olhos com as palmas da mão. Tirou os sapatos e caminhou até o banheiro. Descalço. Água fria no rosto e nos punhos. Água fria. Água.

 

As pupilas de seus olhos estavam maiores; era doença. Daquela que todos param na banca de jornal para saber, de algum país de longitude baixa. Estava doente. Não estava, era coisa que sua cabeça criou, culpa emocional. Voltou para a mesa, mas antes fez gestos diante do espelho. A cada martelada ele mudou de expressão, riu e sentiu ódio. Mais água no rosto. O outro poderia ser algum pedreiro. Eles agora gargalhavam – eu sou a piada. Não, não. Eles nunca me viram. Voltou para a mesa, pegou a caneta, folha nova e, com determinação juvenil, começou a escrever. Mas nada apareceu em suas linhas, ajeitou os cabelos brancos novamente. A fumaça de cigarro, os risos dos pedreiros. Ele parou de fumar, não voltaria, estava doente. As pupilas.

 

Abriu a janela e os guarda-chuvas pequenos coloriram as calçadas. A de meia-calça e saia preta, a mais bonita. Ela esperava um táxi ou o semáforo abrir. Aguardava um encontro, um segundo qualquer de muitas expectativas diárias. Longos fios de cabelos claros e seios lindamente… Ela entrou no táxi. Descalço, fechou as cortinas amarelas e voltou para as folhas. Escreveu duas páginas inteiras e cada palavra em primeira letra maiúscula. Não releu e dobrou quatro vezes, lacrou o envelope, os martelos pararam e causaram um silêncio enorme, que se pôde ouvir o relógio trocar de minutos. Passava das seis e os correios, fechados. Depois das seis, ainda não é hora. Seis.

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Torre, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.

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