Destino

— Então, eu sempre rezei pra viver sobre duas rodas. Quando eu tinha cinco, seis anos, ganhei uma moto, mas, pelo que a minha mãe falava, minha paixão por “motocas”, como ela dizia, começou bem antes. Ela contava que, quando eu era bebê, ficava no colo do meu avô, apoiado no muro da nossa casa, e, sempre que passava uma moto, apontava e fazia o barulho do motor com a boca. O meu avô se divertia e incentivava. Eu não lembro. Nem da situação, nem do meu avô. O velho morreu cedo, atropelado por uma moto saindo do boteco, na esquina da nossa casa.

— Poxa, eu sinto muito. Me dá a mão aqui.

— Valeu. Então, essa moto que eu tive, ainda criança, era daquelas de plástico. Laranja e verde, com quatro rodas, sabe? Feia pra caralho, mas era minha. Tinha uns pedaizinhos, tipo bicicleta. Eu rodava com força e ouvia dentro da minha cabeça o “vrummmm”, igualzinho às motos de verdade. Até girar a mão no guidom, imitando o movimento de acelerar, eu fazia.

— Criança é assim mesmo, né? Se diverte com o que tem. Isso, força agora.

— Ai… Pois é, mas foi no meu aniversário de dez anos, se não me engano, que cheguei perto de uma moto de verdade pela primeira vez. A Lili, minha irmã, chegou em casa com um namorado novo, sentada na garupa de uma Honda azul, velha, pequena e barulhenta. Acho que era uma 125, sei lá. Nem senti ciúme do menino que tava com ela. E olha que eu era ciumento pra caramba com a Lili. Não gostava dela cada semana com um cara diferente. Pior que ela era gostosa, sabe? Um pouco mais velha do que eu, adolescente, já viu, né? A molecada não perdoava. Sempre tinha alguém dando em cima.

— É, irmão mais novo é complicado. Levanta a perna.

— De novo? Beleza. Mas muito pior que eu era o meu pai. Ele, sim, ficava puto com a Lili. Nesse dia, nem a festinha do meu aniversário acalmou o coroa. Mal ela entrou em casa com o carinha, e a gritaria começou. Eu nem liguei e continuei na rua. Tava era encantado com a Honda velha. Passei a mão no banco, no tanque. O cano de escapamento ainda tava quente. Cheirando a óleo e combustível queimado. Porra, que vontade de subir e sair pilotando. Já tava planejando como ia pedir pra dar uma voltinha, quando ouvi minha mãe gritando, chorando, pedindo pelo amor de Deus. Quando me toquei do que tava acontecendo, só vi meu pai na porta de casa descendo a porrada na minha irmã. O moleque, assustado, apareceu logo atrás. Passou correndo pelo meu pai e pela Lili, subiu na moto e sumiu. Nunca mais vi. Nem ele, nem a Honda velha. E nem a Lili, que saiu de casa com a roupa do corpo, toda machucada, e nunca mais voltou.

— Sério? Que chato. Força nessas pernas.

— Porra, tá cansando hoje. Quando fiz dezesseis anos, comecei a trampar. Juntei uma grana e comprei uma mobilete em quarenta e oito vezes. Minha mãe disse que eu era louco. Meu pai, então, quase me bateu. Falou um monte, mas nem liguei. Os meus amigos falavam que eu dirigia uma enceradeira, mas eu não tava nem aí. Ela fazia mais barulho do que andava, mas só de sentir o carinho do vento na minha cara já me fazia feliz. Pena que durou pouco. No segundo mês, fui assaltado. Roubaram a porra da mobilete e me deixaram com um carnê de quarenta e oito parcelas para pagar. Foda.

— Puta azar. Isso aí, cara, não para, não, tá quase chegando ao final.

— Beleza. Depois disso fiquei um tempinho andando de ônibus, mas, logo que completei dezoito anos, me matriculei na autoescola e consegui minha carteira de habilitação. E foi só acabar de pagar o carnê da mobilete roubada pra eu entrar em um consórcio de uma moto. Sempre sonhei com uma Harley, mas a grana não dava, então escolhi uma CB 400, grande, bonitona. Demorei um tempão pra ser contemplado, mas, quando saiu o meu nome no sorteio, quase chorei. Pronto, era a minha hora. O capacete eu já tinha há uns três meses. Mandei fazer todo grafitado, deixava guardado em casa e, quando me dava vontade de pilotar, colocava e ia jogar videogame. Tinha um de corrida que era demais. Me acalmava.

— Legal. Ô, não para, não, vamos voltar agora!

— Eu rodei muito com a minha CB. Praia, era todo fim de semana uma diferente. Mesmo com chuva. Eu não ficava mais em casa. Interior, serra, fui rodar até em outros estados. Foram não sei quantos mil quilômetros em cinco meses. Tenho muita foto dessa época. Eu sempre pego os álbuns e fico revendo. Os amigos, os rolês, toda a mulherada que andou na minha garupa, agarradinha em mim, porra… como era bom. Foi com essa moto, a primeira e única que tive, que aconteceu essa merda.

— Fica tranquilo, você tá evoluindo muito bem. Logo, logo, você tá pilotando de novo. É só rezar.

— Rezar? Eu acho que Deus não entende muito bem o que peço, então parei de falar com Ele. A última vez que pedi alguma coisa foi pra viver sobre duas rodas. Pior que não posso nem reclamar, né? Ele me tirou a moto e me meteu nessa maldita cadeira. Deixa a oração pra lá e vamos voltar pra fisio…

— Bora! Vamos lá, estica as pernas e vamos voltar a andar.

— Vamos, sim. Deus te ouça, mas que te ouça melhor do que Ele ouve a mim!

 

 

Foto: blog 2 Wheels Adventure, viagem a Ushuaia (Argentina).

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