Diários de esquecimento

Cada João e cada Maria aguardam a chegada de um Dia. Eu também aguardo, embora minha espera seja o incomum. Alegra-me a ideia do dissonante, da ruptura e da resistência. Carrego em mim João e Maria. Ao mesmo tempo, em tantas linhas, carregaram-me de ideias e nem sempre alegrias. Despeço-me desse que não é mais que meu próprio cão.

As histórias acabam. Ainda que neste tempo, entre o fim e o começo, neguemos os indícios sutis de seu esvanecimento. Assim, negação de todo o fim não é mais que a afirmação de toda a possibilidade de eternidade. No entanto, ainda que a negação seja o princípio de sua existência, é no definhar sutil, no fim provisório de cada reencontro, que se sente. É o inverso de cada esquecimento.

Em suspenso, a promessa de que o permanente seja falso. Somente nos dias de ruptura desse acordo tácito é que alguma aflição ganha relevo entre os desejos. As histórias acabam em seus fins calmos ou trágicos, despertos ou sonolentos. As histórias também recomeçam com a trapaça e novas e silenciosas promessas. Evita-se, e às vezes os fins não acabam. As histórias retornam as mesmas. Há ainda horas em que as histórias retornam outras.

Às vezes com alguma demora, Maria pensava em ir embora. Voltava para casa. Os dias calmos tornam as coisas mais fáceis e se em cada ladeira o cansaço, em casa é a esperança que enche os pulmões. Os fins de tarde eram eternos reencontros com as coisas passadas. João, em seu descompasso com o cão, já não espera. Por sua vez, um ou dois cães esperam em gestos leves a mulher subir cansada e os meninos passarem ligeiros. Em cada passo, como efeito desses tempos cruzados, da esperança e do aguardo, desfilam nossas lembranças que contrastam com todo o evanescer. Seria resistência? O afeto desfila pela memória em imagens coloridas.

A música toma conta do imenso salão. Na mesa, João descansa os braços e brinca uma disputa qualquer entre os dedos e os copos. A noite é invadida. Os cães permanecem fora e todo o sereno não faz mais que deixá-los excitados. Levantam, rodam, rosnam e voltam a deitar no chão úmido.

Os rostos se espalham e na mistura entre a melodia pobre e as conversas fiadas, João se distrai. Maria permanece ali. Espalham-se pelo lugar Miguel, Judith, Alzira e outras vizinhas. João sai para algum canto imaginário. É o resultado da refinada habilidade da distração.

Sobre a mesa, os copos se agitam. A batida desencadeia, na imensidão de água condicionada para a sede, pequenas ondas fortes. É mínimo seu movimento. Não há alma que naquele momento se detenha naquele ínfimo agito. Detém-se um instante mais. Não se distrai sem causa. Irrita-se com a insistência alta e nostálgica.

No salão, os braços para o alto. Maria se levanta. O olhar se perde no salão e ela corre contente para o meio do calor. Antes ainda, olha sorridente. João entende, é um convite. Desses a que a gente se entregaria se não nos provocassem algum desconforto. Ele sente. Ela entende e vai-se rindo ao som alto de uma melodia já antiga. Antes ainda, estende gentilmente sua mão. João prova seu gosto. O toque ainda alcança de leve seu rosto e, eternamente por esses segundos, enxuga-lhe a testa. Uma vassoura velha não pode aventurar-se. E João aceita sua passagem de uma partida temporária.

O copo, os dedos, a água e a melodia desaparecem. Do salão imenso e cheio, Maria olha contente. João sente novamente sua alegria e, mais que qualquer palavra bem pensada, tenta retribuir-lhe. Se soubesse sorrir, era seu sorriso que ela veria.

Maria dança livre: eu sou tempo absurdo, diria.

Ela levanta seus braços. Sorri em um descompasso. Foi sempre sensível a qualquer interferência em seu ritmo. Não teme perder-se entre os movimentos e os sons. João caído e obtuso, observa. É tudo. Mas, no fundo, guarda sorriso simples. Aquele que a gente ri quando sente. E o que se pode sentir? É de novo simples: tudo!

Sobre os rostos que cruzam o salão, não lhe interessa. Fisgado por completo, é peixe conformado. Devolvido ao copo, protesta. E Maria segue linda sua dança alegre. Não pensa, não poderia pensar em nada além disso: é tudo o que preciso. Precisava. Pois, em algum desvio, não voltou. Não volta mais.

Por sua vez, a eternidade nunca pareceu tão lenta. Todos os caminhos futuros se cruzam com os de Maria. Seremos eternos nessa vida, diria sem vacilo. Perdeu-se o tempo. A eternidade é essa memória que fica, que percorre e é percorrida. É sensação que o corpo absorve e quando não mais esperamos nos tornamos os seus traços e os seus rasgos. A eternidade continua até quando atirada ao chão, até quando de mão em mão não causa mais retornos. A eternidade:

– Seremos dois decididos a experimentar a imensidão um do outro.

 

Imagem: feelgrafix.com/

Comentário