E agora, José?

Ele se levantou e saiu. José não era do tipo de gente que espera a vida passar. José acreditava que, mesmo quando dura, a vida era presente e merecia atenção. Essa história de sobreviver não lhe cabia. Ele queria mais. Atrás dele, um chefe berrava no meio do corredor mal iluminado. José sabia que não podia mais suportar certas agressões verbais. José não era mais feliz ali. Entregou o que lhe cabia, para o dia. Decidiu partir! José não se despediu!

E agora, José? – era o que ressoava em sua cabeça o tempo todo. Mas isso não lhe fazia assustar. Daria um jeito. Seguiria seu sonho, ainda que isso lhe custasse dias mais difíceis. Pela manhã ouviu no rádio uma música que ficou martelando a cabeça. O rapper alertava que ele, José, era o único representante do próprio sonho na face da Terra. Finalizava dizendo que, se isso não o fizesse correr, chapa… nada mais o faria!

José concordava com o rapper, mas sentia como se sua vida não tivesse GPS. Era difícil de compreender o caminho, e, mais uma vez, ele teria de recalcular a rota. José, moço novo com uma vida inteira pela frente, decidiu que viveria de sua arte. Sua mãe lhe perguntaria, quando ele chegasse em casa antes do fim do expediente: E agora, José? As contas chegariam mais cedo, venceriam na estante, José precisava ajudar, José era o único que podia. E agora, José? Quanto vale o seu sonho? Quão longe ele pode te levar?

Os sapatos de solas tão gastas, os olhos cheios de luz. O que a boca dizia condizia exatamente com o que sentia o coração. José se esforçava em ser do bem. Ainda que o trabalho fosse dobrado, ou que as noites se tornassem mais longas. Colocou a mão no bolso, segurou firme o patuá que o preto velho havia dado. José era sobrevivente.

Se não fosse a perseverança por dias melhores, ele já teria virado estatística. Alguém, em algum noticiário sensacionalista, já teria dito que José havia trocado tiros com a polícia e sido abatido durante a perseguição. Assim, como quem caça um leão na savana africana. Assim, como quem acredita ter o direito de decidir quem pode ou não pode respirar mais uma vez. Mas José não quis assim. José olhava para os irmãos que perderam a batalha e sabia que, também pela memória deles, precisava ir mais longe. José queria ter voz!

Era o primeiro round, José sabia que não havia ganhado esse assalto. Mas sentou no banquinho, no corner do ringue, respirou fundo, seu treinador era Deus. Viriam novos rounds, até mesmo novos adversários. Ele não estava pronto, mas as batalhas do passado o treinariam para melhores resultados no futuro. E agora, José? Agora a vida seria honesta.

Navegar era preciso. Pra luta diária, pro fio da navalha, que faz da coisa toda uma coisa só. José era o mais novo contemplado do consórcio da felicidade, ganhara casa, comida e roupa lavada pro coração, assim pelo menos viam os seus doces olhos ludibriados pelo otimismo. Não era preciso perguntar o famoso “E agora?”. José já sabia! Se o medo chegasse, Deus sopraria as dicas. José! Você marcha, José! E agora? Pra onde? Pra onde Deus assim quiser.

 

 

Imagem: Arte Jornalirismo

 

Um comentário para “E agora, José?”

  1. Larissa

    Texto muito bom. Parabéns! (:

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