E foram todas aquelas bebidas

 

 

Saiu do chuveiro e penteou seus longos fios negros de cabelo com um pente; sem se secar, caminhou para a cozinha, abriu uma cerveja em lata e acendeu a vela que estava em cima da mesa de mármore. Encostou o cigarro na chama da vela, tragou e tentou repassar todos os momentos desde quando saíra de casa, sozinha, ao encontro das amigas, como se não acreditasse no que havia acontecido aos anseios.

 

A noite estava escura, não por alguma mudança de temperatura, mas era diferente. As luzes dos postes daquela rua atrás da Consolação permaneciam quietas e não acendiam o suficiente, como se estivessem prestes a explodir e clarear tudo de uma maneira cilíndrica e robusta. O painel piscava muito, quase não se via o nome Juke Joint, aceleravam três vezes sem parar, muitos esperavam nas escadas, conversavam na velocidade do piscar do letreiro, equivalente a três segundos ou mais. A porta amarela de aço e plantado um homem grande de terno e gravata, o broche grande e metálico; segurança em letras maiúsculas. As pessoas, paradas no degrau que se contava cinco, falavam alto e de várias maneiras, assuntos, cervejas, cigarros e outros cigarros mais densos e fortes. Dois homens tragavam vodca, viravam a garrafa e riam. Berravam Psycho Killer, batiam os ombros uns nos outros e levantaram a garrafa como uma adoração nula, que não aconteceu. Terminaram e um deles jogou o cigarro no chão, pisou com o sapato colorido e tossiu; como se a realidade reaparecesse. Fizeram uma expressão séria e não riram, observaram a porta que era verde e o néon forte; o letreiro triunfou as mesmas letras três vezes.

 

Quando o segurança de sobrancelhas curtas abriu a porta, o som vazou e incitou a conversa dos que esperavam na pequena escada. “Um por vez”, gritou. Fizeram fila e a fumaça dos cigarros densos feitos à mão avançou. Era um balcão enorme na direita, um homem alto de nariz pontudo preparou drinques rápidos, lustres pendurados acima das mesas e a parede coberta de vinil, as luzes baixas pareciam velas quentes que queimariam antes de chegar à pele. Em pouco tempo o balcão encheu de braços que mexiam tanto, os corpos dançaram, inventaram passos, beijos e se tocaram. Um deles sorriu para o amigo com a certeza nos braços para o alto e a vitrola no centro do balcão tocava Pharaoh’s Dance. E lá fora, a noite estava escura de luzes que não acendiam o suficiente, como estivessem prestes a explodir e o piscar incansável do letreiro, Juke Joint. Ela vestia saia preta, que fazia suas pernas maiores, seus cabelos brilhavam e se misturavam à maquiagem elogiada pelas amigas. Elas se abraçaram, beijaram-se e prometeram algo a mais entre risos curtos. Perguntaram por ele minutos depois, ela disfarçou com um não quis vir; e foi só.

 

No balcão pediram drinques seguidos, uma delas, tequila. As três resolveram quem poderia beber mais doses, amigas há muito tempo, dividiram a república na universidade e sempre que bebiam falavam dos meninos, amores e sexo. Do barbudinho, do cara alto que tocava violão e fumava maconha. Praticamente da mesma altura, usavam roupas de festa e a que estava de vestido azul; uma faixa azul-marinho para prender os cabelos ruivos que batiam nos ombros. Foi ela que, no terceiro copo de tequila, percebeu a animação do barman e começou a dizer euforicamente de uma transa na faculdade.

 

— Ele era amigo do Rui, que descobrimos que era gay. Lembra-se dele? – elas riram imediatamente.

— Pegamos vocês dois nus no meio da sala.

— Não se esqueça do detalhe! Que você entrou no meio, se misturou com a gente.

— Eu estava bêbada.

— Está bêbada agora – e gargalharam.

 

O vinil da vitrola central ecoava alto e ela dançava sozinha, equilibrou o copo propositalmente, em uma pose de passos curtos e concentrados. Era a mesma música do disco da capa que tem o capacete, ela não acreditou e se virou para as amigas que dançavam e conversavam na outra ponta; de olhos fechados e depois de muitos drinques, sentiu uma mão em sua cintura, colaram o rosto e mexeram os corpos. Ele, mais alto, calçava um tênis colorido e jaqueta preta; segurou sua mão e foram apressados em direção ao banheiro, os beijos aconteceram antes da pronúncia do nome e da apresentação. A fila era pequena e os dois entraram rapidamente no toalete masculino, com fotografias de mulheres na parede; ela trancou a porta com a mão direita e o rosto na boca dele. Levantou a saia rapidamente, ficaram nus em suor e saliva; permaneceram até que os socos na porta de apressados aumentassem. Ao saírem, ela sentiu um repúdio de segundos e caminhou com passos rápidos na direção da porta amarela de aço sem a despedida das amigas.

 

Recordou da noite e de Baudelaire, sentada à mesa e mirando a vela com o cigarro, fitou a porta, as horas e o telefone. Sozinha no apartamento chorou e tentou preencher o silêncio com um livro de fotografia de capas de discos pop, o cigarro acabou.

 

 

Leia também “E foram todos aqueles minutos”, de Alessandro Araujo, clicando aqui.

 

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Multifoco, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.

 

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