E foram todos aqueles minutos

 

Ela pensou em Baudelaire ao abrir os olhos e sentir uma ressaca cintilante que veio da noite anterior após a notícia fatídica do fim. Todas aquelas palavras ficaram em sua cabeça mesmo depois de acordar. Sozinha no apartamento, seu salto caminhou rangendo o piso de taco naquele início de noite. No espelho grande do banheiro, com uma das mãos, limpou a maquiagem ao redor dos olhos, que estavam borrados. Acendeu um cigarro, ligou o chuveiro, sentou no chão e repassou balbuciando a conversa antes de todas aquelas bebidas.

― Gosta dessa música?
― Já ouvi, mas não estou reconhecendo. Tem cigarro?
― Esse disco não é tão bom quanto aquele. Sabe o disco que tem um capacete?
― Tem que escolher um disco?
― Não. A música é boa. Foi naquela festa que ouvimos?
― Achei que você não se lembrava daquela festa.
― Por que não lembraria?
― Tomou todos os possíveis copos de vodca e saquê.
― Você esqueceu a cerveja.
― Acha que esqueceria?
― Eu gosto de vodca.
― Tive a impressão. Não me olhe desse jeito, detesto! Não vai falar do famoso disco com o capacete na capa?
― Eu me lembrei de uma amiga que escrevia, com o corretivo na calça jeans, os nomes das bandas que mais gostava.
― Eu me lembrei de um ex-namorado.
― Qual deles? Não são poucos.
― É que ele ouvia sempre essa música quando fazíamos…
― Quando vocês transavam?
― Não gosto desse tom.
― Vou fazer um drinque. Já é tarde e vamos perder o melhor da festa.
― Elas vão chegar, não precisa de pontualidade.
― Como vai querer?
― Com pouco açúcar, para não estragar o sabor da pinga mineira.
― Já sei.
― Eu que sei.
― O que sabe?
― Que vai ficar ruim. Você é péssimo nisso.
― Com duas pedras de gelo.
― Não quis falar aquilo da música.
― É. Mas falou.
― Tá. Sim. Falei.
― Falou mesmo.
― O que queria que eu falasse?
― Não. Nada.
― Não?
― É. Não me importo.
― Eu sei que se importa.
― Então por que disse?
― Você sabe como fica quando diz essas coisas?
― Como fico?
― Assim mesmo. Pensando.
― Nas pernas da menina que tinha nomes de bandas na calça jeans?
― Eu não disse isso.
― Claro que disse.
― Não.
― Claro que falou.
― Me dá mais um cigarro.
― Você vai ficar com cheiro de cigarro e não de perfume.
― Sim, só me falta a calça jeans com o nome de bandas.
― Pare com isso.
― Como paro? Você disse das pernas da menina do colégio.
― Eu não falei das pernas, falei das bandas!
― E como quer que eu acredite?
― Só ouvir exatamente o que disse.
― Eu ouvi.
― Claro que não. Eu estava falando de bandas.
― Se estivesse falando das bandas, falaria somente delas. E não da calça jeans da sua menina.
― Eu não disse.
― Não falou só falou, enfatizou!
― E você?
― O que tem eu?
― Da transa com o ex-namorado.
― Eu falei da música.
― Vou preparar mais um drinque.
― Não ficou bom.
― Sabe quando ouvimos essa música pela primeira vez?
― Ouvimos na festa de ontem.
― Não foi. Ouvimos quando transamos pela primeira vez.
― Verdade.
― Você pensou nele?
― Em quem?
― No seu ex-namorado.
― Por que pensaria?
― A música.
― Como assim?
― Eu lembro que você fez questão de colocar a música antes de começarmos.
― Sim. Mas é linda, essa música.
― Você gosta ou gostava dele quando transávamos?
― Claro que não!
― Gostava, sim.
― Não quero falar disso.
― Mas eu quero!
― Não vou responder essas perguntas. É sábado!
― Acreditei que era a nossa música.
― Eu nunca falei isso.
― Nunca falou o quê?
― Que horas são? Estamos atrasados.
― Quase meia-noite!
― Nossa música?
― Não falei. Eu coloquei a música pra gente.
― Você gostava dele ainda?
― De onde tirou isso?
― Pelo que disse.
― Nem sei por que está dando tanta importância…
― Porque era nossa música.
― Não vou afirmar isso.
― Pensou nele?
― Não pensei!
― Tenho certeza que sim. Ele era bom?
― Ele, quem?
― Seu ex-namorado.
― Eu tinha uma calça jeans na época, com nomes de bandas escritas. Eram bonitas?
― Não fuja da pergunta com outra.
― Foi uma exclamação, digamos.
― Você queria esquecer ele?
― Está me devendo uma resposta. E as… Eram bonitas?
― As o quê?
― Pernas de sua menina do colegial.
― Era uma amiga.
― Típico comentário machista. Está mentindo.
― Não mentiria!
― Seus olhos estavam brilhando quando falou. É mentira.
― Meus olhos?
― Sim. Seus olhos.
― Ela era uma amiga do colégio.
― Amiga do colégio que vocês transavam.
― Não costumo sair transando com minhas amigas.
― Eu costumava.
― Ele era um amigo?
― Ele não era. Ele é!
― Não acredito nisso!
― Acredite.
― Posso saber o nome dele?
― Ainda não. Está na hora de ir, apague o cigarro.
― Eu não vou mais.

 

*Alessandro Araujo é escritor, autor do livro “Pro Santo & outras perdições” (Editora Multifoco, 2012), que você pode conhecer e adquirir clicando aqui.

 

 

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