Ela colhia cores no dia cinza

 

Ela sorria. Ela ria. Ela gargalhava, gesticulando. Era bem esquisitinha, pelo menos na opinião tantas vezes injusta dele. Mas, afinal, o que era a normalidade? Isso existiria? Ela emitia ruidinhos agudos em situações improváveis, e às vezes falava com a boca parcialmente cheia. Ela agora sorria. Estava alegre como havia tempos não se sentia, confessou, à cama, depois do ato, e em seguida, à mesa, enquanto molhava o pão na chapa com requeijão na entrada, na xícara média de café com leite.

 

Dizia que ele era maravilhoso, ela era só elogios. Ele era estupendo! estupendo! Ele sorria com os olhos, a mão esquerda apoiada meio de lado no queixo, escondendo os lábios, meio envergonhado, às vezes rejeitando o elogio. Ele se desconcertava com a solta, ou temerária?, sinceridade dela, o que não o impedia de admitir que era bom ser desejado por uma mulher. O certinho, veja só, parecia ser ele mesmo, e não ela, como imaginava.

 

Ela sorria. Ela ria. Ela gargalhava. Ela convertia a lei da gravidade em lei da alegria. Ela flutuava. Ela estava feliz. Até para a academia, foi dizendo, havia voltado essa semana. A alegria que ela sentia, resultado do trabalho, a colheita de esforço, da plantação. Ela buscara, perseverara por isso.

 

O contentamento fundo dela era um sentimento complexo e até antagônico para ele. Reverberava nele, como sutil alegria. Era bom fazer, e ser, um bem para ela. Ofuscava, também, como claridade extrema para quem se acostumou a pouca luz. Entristecia, ao fim, por não sentir a mesma vibração dela, a mesma intensidade. Ele, que sempre fora dos amores e sentimentos completos e mirava agora, de frente, até com coragem, a realidade em si, com tudo de incompleto e falho e também belo que tem.

 

Acordara sozinho, no canto da cama dela, no meio da noite. Onde estava ela? Sonhara sonho ruim, de amor passado, despertara triste, angustiado, e pensou em se erguer, se vestir e partir, o sol ia agora se imiscuindo timidamente pelas frestas da janela do quarto e da porta do banheiro, que estava fechada. Ela estaria lá dentro? Sentiria-se mal? Haveria o amor, outra vez, para ele, dentro dele? Seria ela, essa mulher já madura, madura como ele, imatura como ele, a pele crestada de tempo? Horas depois ele sonharia com o pai morto, e o pai brigou com ele de modo destemperado e injusto.

 

À rua, ela disse que gostava do domingo cinza e levemente frio, como esse, livre daquele calor, e ele concordou dizendo que o dia, assim, tinha a sua beleza. Ele estava meio dia como o cinza. Ele estava meio pesadelo como o medo.

 

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