Ela é modelo; ele não é nada

Ela é modelo. Ele não é nada.
 
Ela descende de europeus. Alemães e italianos. Ele nasceu de uma mistura de raças, mas convém chamá-lo de negro, que é a palavra que melhor sintetiza a injustiça. Ela aparece na televisão quase todos os dias. Famosa, terá em breve um programa de televisão só seu. Ele é mais um anônimo entre tantos marginalizados. Pode até ser confundido com outros garotos de sua idade. Não tem nada além da pistola calibre 380, que se orgulha de nunca ter usado contra ninguém.
 
Ela aparece constantemente nas reportagens realizando doações em dinheiro às casas de caridade. Nessas ocasiões, fica mais visível o emblema da grife que representa do que o nome da instituição que ajuda. Apesar de ser uma filantropa profissional, não foram raras as vezes que declarou que detesta gente feia (por feia, entenda-se pobre). Ele, quando dá tudo certo no seu ofício, “adianta o lado dos mano, ou das tiazinha”. Veste-se com as roupas da marca que a modelo representa.
 
Ela usou cocaína na adolescência e hoje se entope de uísque nas festinhas da alta sociedade. Nas crises de abstinência, já agrediu o pai e a mãe. Ele tem aversão a bebidas alcoólicas. Talvez por ter visto o pai morrer de cirrose.
 
Ela participou de uma campanha contra as drogas, porém nunca declarou que já as usou, por não querer prejudicar a imagem. Ele pensa que maconha não é droga. Quanto às outras, diz que não usa, mas não critica. Nunca levantou a mão ou a voz à sua mãe. Nem quando recebeu um tapa no rosto, uma semana após ter ficado famoso na sua área, por dar um perdido nas Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar. Considera-se tão bom no comando de uma motocicleta quinhentas cilindradas, quanto com as garotas.
 
Ela conhece o mundo inteiro. Privilégio que sua beleza concedeu. Já desfilou nas mais importantes passarelas do planeta. Ele mal conhece a cidade onde mora. Nunca ouviu falar da Argélia ou do Canadá. Não tem consciência da dimensão do globo. Seu mundo é apenas onde ele passa, por isso tem o mapa da quebrada na palma da mão, imprescindível para escapar dos cercos policiais. Ele é peixe ensaboado.
 
Ela tem a agenda lotada. Ele passa a maior parte do tempo em frente da televisão. Apesar de toda a agressividade aparente, ainda consegue rir com seriados mexicanos, mostrando, assim, seu lado infantil.
 
Ela saiu no seu importado. Ele, em sua moto. Encontraram-se no farol, terra de ninguém. Ele parou ao lado dela e se encantou mais com o caro relógio de ouro que a moça ostentava em seu braço esquerdo do que com as belas curvas femininas. Sacou a pistola automática. O coração da vítima acelerou. Tomou-lhe também a carteira com os seus cartões de crédito e sumiu. Ela ficou paralisada mesmo depois do semáforo se esverdear. Os automóveis buzinavam insistentes atrás dela, sem saber do ocorrido. Sua freqüência cardíaca era a mesma de um corredor de cem metros que acaba de cruzar a linha de chegada. Mas podia se dar por satisfeita, afinal, em ocasiões como essas, os corações costumam parar para sempre.

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