Enquanto o mundo fede – capítulo 15


No táxi, Carolina começou a cantar uma música infantil. Em princípio, pensei que fosse retardada, possuída por algum erê ou algo do gênero. Sobre pombinha branca, cadê você, lavando roupa pro casamento, estava na janela, passou um homem, de terno branco, ele entrou, sentou e depois cuspiu no chão. Coisa feia! A moça convida o homem de terno branco, e ele cospe no chão. Com certeza, viu que era gordinha e pensou “gordinha filha da puta, me trouxe aqui com essa ladainha”… capuft… mandou o escarro no chão, pegou seu paletó branco e saiu fora.

– Você acredita no amor? – perguntou a lindinha das coxas finas chamada Carolina Fairbanks.

– Bandeira 2?

– Acho que acredito no amor sincero e romântico. E você?

– Acho que esse taxímetro está alterado.

– O amor pode ser poesia.

– Ô taxista, na boa, esse taxímetro tá sacaneando a gente, ou você é sacana.

Scrinnnntque. Aquela mulher era catatônica, só pensava no amor e eu só pensava em quanto aquela corrida sairia… chiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii… ráááááááááá… Caralhoputamerdavocêtádoidãocacete.

O taxista ficou louco. Carolina não parava de falar sobre o amor, então pensei “cadê a porra do meu carro?” E o taxista mandou a gente descer e disse que estávamos loucos, o taxímetro ia faturar. Porra, mas era verdade. Que o amor se danasse naquele momento… TIM… TIM… e rola a grana. O mundo sendo sacudido por pilantras, e Carolina querendo o amor dentro de um táxi.

Chegamos no meu apê. Bem, não queria ter chegado no meu apê. Guga, Yuri, o porteiro e mais umas pessoas do prédio jogavam pôquer. Meu apartamento tinha virado um salão clandestino de jogos. Yuri apenas sorriu: “Ei jornalista, vamos fazer joguinhos de azar?”. Eu só queria sossego. Cada vez que abria a porta do meu apartamento era uma surpresa. Pombos, russos, ácidos, porteiros, Guga etc.

Carolina passava a mão pelo meu corpo e agarrou meu cacete. Tipo uma bêbada sem pudor.

– O que eles estão fazendo?

– Nada, benzinho, vamos embora daqui. Talvez sua casa esteja mais vazia e podemos ficar tranquilinhos por lá.

Fechei a porta do apartamento e depois abri novamente. Agora eram dançarinas do ventre por todo lado, pisando em Yuri, Guga, no porteiro. Fechei a porta. Abri. Quatro macacos zangados pulavam de um lado a outro, rasgando o sofá, quebrando a estante e gritavam. Fechei. Abri. Eles continuavam jogando pôquer. “Quer jogar, Carlos?”. Fechei e nunca mais quis abrir a porta, talvez não voltasse, eles que se virassem com as contas. Hum, melhor não.

PS – Talvez tudo isso seja culpa da vodca ou de algo que comi, mas que está bem estranho está.

Leia o capítulo 14.
Leia o capítulo 16.

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